
A rotina do aposentado José Mango começa logo cedo. Ao acordar, vai direto para a cozinha, toma café da manhã e passa horas lendo o jornal. Anda pela casa, faz todas as refeições do dia e assiste à televisão nos finais da tarde. Quem se depara com Mango realizando todas essas tarefas sem dificuldade nem imagina que o idoso de Ribeirão Preto (SP) já tem 101 anos de idade. A disposição do aposentado é tão grande que surpreende a filha Gilza Mango, de 72 anos. “É um homem muito ativo. Não representa a idade que tem. Atualmente a carinha dele está até melhor que a minha. Nem parece que somos pai e filha”, afirma.
Pessoas como Mango são alvo de um estudo da Universidade de São Paulo (USP) de Ribeirão, que procura voluntários para concluir um levantamento sobre os centenários que vivem na cidade. De acordo com a pesquisadora Mariana Freiria, o objetivo é traçar o perfil dos “super idosos” e apontar os hábitos que possam vir a contribuir com a longevidade. “Nossa intenção é encontrar marcadores de longevidade, e com isso, quem sabe, melhorar a qualidade de vida desses idosos. A intenção é colaborar com o envelhecimento mais saudável da população”, diz.
A dificuldade dos pesquisadores, no entanto, tem sido encontrar voluntários com mais de 100 anos para participar do estudo. Baseados em informações do Censo 2010, que aponta que Ribeirão Preto tinha 58 centenários na época, os autores da pesquisa tentam avaliar até o final deste ano pouco mais que os 20 pacientes já inseridos no estudo. “Outro agravante é que dos 20 pacientes avaliados, somente um é homem. Sabemos que a grande maioria dos centenários em Ribeirão é do sexo feminino, mas quanto mais centenários tivermos, melhores os resultados para nós”, afirma.
A pesquisa consiste na avaliação da rotina do idoso, além da coleta de dados sobre o histórico familiar do paciente. “Avaliamos o idoso centenário como um todo, desde o histórico familiar de doenças, histórico pessoal, alimentação ao longo da vida, humor do paciente, cognição, estado mental, exames físicos, teste de força, de equilíbrio, qualidade de vida, ou seja, uma avaliação global do idoso da nossa cidade”, explica Mariana.
Perfil preliminar
Uma quantidade maior de voluntários é importante para os estudiosos para complementar o perfil preliminar já traçado nos dois anos em que a pesquisa é desenvolvida. Segundo Mariana, os dados da longevidade colhidos com os idosos apontam, até o momento, que 75% deles nunca fumaram e 68% desempenhavam várias atividades ao longo do dia. No entanto, a maioria destes idosos -75%- apresenta algum tipo de demência, e 28% têm depressão.
“Infelizmente, a maioria desse pacientes está com nível de demência, bastante limitação para atividades físicas, dependentes de cuidadores. Ao mesmo tempo, eles têm um suporte familiar importante que acredito que tenha contribuído para essa longevidade”, comenta a pesquisadora.
O senhor José Mango, no entanto, é exceção no estudo. De acordo com Mariana, o centenário tem equilíbrio, está cognitivamente preservado, tem boa memória, apresenta bom apetite e dorme bem – o que é pouco comum para pessoas mais idosas. “Ele também é muito bem humorado, não há nenhuma relevância de tristeza ou desânimo na personalidade dele. Além disso ele ainda lê, o que é muito raro nessa idade. É um paciente centenário exemplar nos nossos estudos”, diz.
Segredo da longevidade
Apesar de conviver com algumas limitações aos 101 anos, José Mango se esforça e não deixa de lado as atividades que o agradam no dia-a-dia. “A vista não está muito boa, mas ainda dá para ler bem. Faço questão de ler o jornal todos os dias. Leio revistas também. Se eu não ler, sinto falta. Consigo fazer tudo sozinho, troco de roupa sem dificuldade. Só uso andador para evitar cair, porque as pernas já não aguentam mais. Às vezes eu saio e esqueço o andador pela casa. Mas não caio, tenho muito cuidado”, afirma.
Extremamente ativo, Mango diz que não consegue passar muito tempo parado em um só lugar. O centenário faz questão de dizer que se alimenta várias vezes ao dia e que evita remédios. “Só tomo quando é necessário”, diz. A única coisa que diz sentir falta é o vinho, que Mango parou de tomar por recomendação do médico. “Eu tomava meu vinho antigamente, mas agora o médico proibiu. Tomei caixas e caixas de vinho. Todos os dias era pelo menos meio copo”, diz.
O segredo da longevidade para o centenário, no entanto, é tentar encarar as dificuldades da vida com bom humor. “Cada um tem seu modo de viver. Não sei quantos anos Deus marcou pra mim. Mas tem que seguir sempre com bom humor”, conclui.
Os interessados em fazer parte da pesquisa da USP podem entrar em contato pelo telefone (16) 3602-0009.
Do G1 Ribeirão e Franca



