
O sonho virou pesadelo. Euforia, confiança, obsessão, esperança, desejo, ambição, cobiça. Todos esses sentimentos se reduziram a somente uma palavra para o torcedor do Corinthians na noite desta quarta-feira (5): decepção. E das grandes. Em um Pacaembu lotado, o Timão viu a Libertadores no ano do seu centenário escapar entre os dedos e ficar para trás de maneira dramática. No duelo entre o Fenômeno e o Imperador, nenhum nem outro: melhor para o artilheiro do amor.
Apesar de bater o Flamengo, por 2 a 1, o time de Ronaldo, Roberto Carlos & Cia caiu pelo caminho devido ao gol rubro-negro fora de casa. Uma vitória amarga. Vagner Love foi o algoz da vez. Logo aos quatro minutos da etapa final, ele diminuiu a vantagem alvinegra construída no primeiro e saiu de campo como o principal responsável pela eliminação do Corinthians nas oitavas de final da competição continental. Teve pressão até o fim, mas o fantasma das quedas de 2003 e 2006, contra o River Plate-ARG, voltou a assombrar o clube paulista no momento decisivo. A almejada conquista inédita ficou para uma próxima ocasião.
Foi uma batalha de gigantes, beneficiada pela boa condição do tempo. Um clássico digno da tradição dos dois clubes e da grandeza de suas torcidas. O investimento astrônomico do Corinthians parou na raça e disposição do turbulento Flamengo. Com um primeiro tempo irretocável, o Timão atuou com espírito de Libertadores e conseguiu reverter a vantagem alheia em 45 minutos, com gols de David, contra, e Ronaldo, bem mais participativo do que em outras partidas. Mas ainda tinha outra metade do confronto. E aí o Mengo sobrou. Taticamente impecável e mostrando poder de reação, encurralou o Timão no início da etapa final e conseguiu o gol salvador para derrubar o favorito. Na semana passada, no Rio de Janeiro, o Fla havia vencido por 1 a 0, debaixo de muita chuva.
Agora, o Flamengo encara o vencedor do duelo entre Alianza Lima e Universidad de Chile. Como teve a pior campanha entre os classificados, o Rubro-Negro faz o primeiro jogo no Maracanã e decide a vaga na semifinal em campo adversário. Ao Corinthians, resta esperar o início do Brasileirão para tentar não passar em branco o aniversário de 100 anos. Até o momento, já foram Paulistão e Libertadores, e nada de títulos.
Pressão total do Corinthians, e Ronaldo decisivo
Das arquibancadas, apitos para atrapalhar os visitantes e gritos da Fiel para incentivar. Um som incessante tomou conta do Pacaembu com o apito inicial. Dentro de campo, o clima de euforia contagiou os jogadores do Corinthians. Como era de se esperar, o Timão tomou a iniciativa. Marcando forte no campo de defesa do Flamengo e saindo rápido com a bola dominada, os mandantes criaram as melhores oportunidades. O bombardeio começou aos cinco minutos.
Dentinho pegou sobra do corte da defesa do Fla, cruzou da esquerda e Jorge Henrique apareceu no meio da área para pegar de primeira e mandar por cima. A pressão continuou. Na sequência, Danilo achou Ronaldo livre na ponta direita, mas o atacante bateu fraco e Bruno espalmou para escanteio. Empurrado pela torcida, o Corinthians não cansou de encurralar o adversário. Roberto Carlos surgiu no ataque para tentar. Pegou forte na bola, mas sem precisão.
O Timão não deixava o Fla respirar. Sem conseguir colocar a bola no chão e tocar, os cariocas apelavam para os chutões, o que facilitava a recuperação da defesa corintiana. A primeira chegada do Flamengo aconteceu somente aos 18 minutos. Vinícius Pacheco puxou contra-ataque e passou para Adriano. O Imperador foi desarmado por William, porém, o lance ficou com o próprio Pacheco, que arriscou de esquerda, mas sem perigo para Felipe.
Do outro lado, Bruno teve mais trabalho com Roberto Carlos. O lateral cobrou falta da intermediária e o goleiro caiu no momento certo para defender. Recuado, o Fla não tinha alternativa a não ser parar o ataque alvinegro. Mas estava difícil. Quem mandava na partida era o Corinthians. Dentinho entrou de carrinho e não conseguiu concluir com precisão cruzamento da direita. Mais uma chance corintiana. Outro susto para os flamenguistas.
E tinha mais. Ronaldo recebeu da entrada da área, limpou a jogada e soltou a bomba. Bruno buscou no ângulo. No rebote, Jorge Henrique dividiu com o goleiro e se jogou. Os corintianos pediram pênalti. O árbitro nada marcou. A busca para abrir o placar foi compensada aos 27 minutos. David se assustou com a presença de Ronaldo às suas costas e marcou contra ao tentar cortar cruzamento. A bola ainda tocou na mão do Fenômeno antes de entrar, mas isso passou despercebido: 1 a 0 Corinthians.
O gol não diminuiu o ritmo do Timão, porém, o Flamengo acordou. Aos 38 minutos, Vagner Love ganhou dividida de William e tinha espaço para caminhar até Felipe. Mas hesitou ao ver Adriano entrando na diagonal e optou por servir o companheiro. Tocou mal e desperdiçou oportunidade de ouro.
Logo depois, Adriano tentou levar a melhor sobre Felipe, mas o camisa 1 corintiano afastou o perigo. O encontrão deixou o atacante no chão. No momento em que Felipe pedia para os companheiros colocarem a bola para fora para Adriano ser atendido, o Timão ignorou a recomendação do seu goleiro e chegou ao segundo gol, aos 39 minutos.
Dessa vez, Ronaldo fez o que se espera dela e decidiu. O Fenômeno recebeu cruzamento açucarado de Dentinho e mandou de cabeça para fazer 2 a 0 Corinthians. A bola passou por baixo dos braços de Bruno. Antes do intervalo, o Flamengo buscou diminuir a vantagem, mas parou em Felipe. Em outra saída arrojada, o goleiro tirou a bola dos pés de Vagner Love na hora “H”.
Resposta imediata do Fla enterra sonho alvinegro
Mesmo precisando atacar, Rogério Lourenço sacou o único meia de armação que tinha, Vinícius Pacheco, e colocou Kleberson. A aposta deu certo. O efeito da mudança foi imediato. Aproveitando desatenção da zaga corintiana, Vagner Love recebeu de Kleberson e tocou na saída de Felipe, fazendo o primeiro gol do Flamengo no Pacaembu, logo aos quatro minutos. O novo resultado devolveu momentaneamente a vaga para o rubro-negro.
O Corinthians sentiu o golpe e demorou a se reencontrar em campo. O ritmo frenético do primeiro tempo sumiu. Foi assustar somente em cobrança de falta de Chicão. O zagueiro colocou no contrapé de Bruno, que só olhou a bola sair passando perto da trave. A torcida do camisa 1 flamenguista deu certo. Aos 17 minutos, Dentinho tabelou com Danilo e chutou seco. Bruno pulou, mas não achou nada. Para a sorte dele, a bola foi para fora.
Depois de diminuir a vantagem do Corinthians, o Flamengo passou a apostar nos contra-ataques. A proposta foi bem compreendida por Adriano e Vagner Love. O Imério do Amor criou duas boas chances. A primeira delas saiu dos pés do camisa 10.
Love arrancou, passou por dois marcadores e lançou o Imperador, que preparou a canhota e disparou. O chute saiu cruzado, mas só. Aos 31 minutos, Vagner Love teve a bola para definir o confronto. Ele recebeu toque açucarado de Léo Moura e encobriu Felipe. A bola fez uma curva para fora e saiu. Kleberson também chegou perto de marcar, após jogada individual de Adriano.
O Fla controlava o jogo, enquanto o Corinthians ficava cada vez mais impaciente. E não era para menos.
Na base da pressão, o Timão tentou. A chance derradeira esteve nos pés de Chicão. O zagueiro mais uma vez cobrou falta com perfeição, mas Bruno foi impecável e praticou um verdadeiro milagre ao alcançar a bola com a ponta dos dedos e mandar para escanteio a classificação corintiana. Não havia tempo para mais nada.
Quem esperava a revolta da Fiel, se enganou. Como sempre, a torcida do Timão não abandonou o time em nenhum minuto e ainda ficou do lado dos jogadores até no momento de tristeza. Mesmo após o apito final, aplaudiu o esforço dos atletas, cantou com orgulho o amor pelo clube, mas rapidamente o silêncio tomou conta da maioria do Pacaembu. Com exceção à parte flamenguista, que fez a festa com seus heróis. Um gigante fica. Outro avança, à espera do próximo desafio.
Fonte: EPTV.com



