
O professor Júlio Furtado é Mestre em Educação, Doutor em Ciências da Educação e Psicopedagogo e estará em São Joaquim da Barra, nesta quarta-feira (01/03) apresentando a palestra ‘Liderança, gestão escolar e pedagógica: Desafio de fazer acontecer’ às 16h, tendo como público alvo as equipes gestoras, e às 19h apresentará a palestra ‘A gestão da sala de aula: construindo caminhos para uma aprendizagem significativa’, destinada aos professores e gestores.
As palestras acontecerão no Auditório Arthur Parada durante a 13ª Edição da Jornada Pedagógica de São Joaquim da Barra.
Confira abaixo uma entrevista com o professor.
1) Sobre o tema da sua palestra, que será apresentada dia 01 de março, em São Joaquim da Barra, no evento Jornada Pedagógica, o que torna a aprendizagem significativa, e o que falta para que os professores a promovam mais em suas aulas?
Falta uma maior compreensão de como levar os alunos a construírem sentido sobre o que aprendem. Nós professores somos muito mais formados pelo convívio que tivemos com os nossos professores do que pelas “didáticas” e “fundamentos” que supostamente aprendemos. O modelo “ensinar é falar e aprender é ouvir” está muito mais entranhado em nossos genes do que imaginamos e somos fortemente movidos por esse paradigma. É preciso que lutemos contra cansaço e descubramos o prazer de promover aprendizagens significativas.
Precisamos oferecer aulas mais significativas, que instiguem à construção de sentido por parte dos alunos. Uma aula significativa é aquela em que o professor se preocupa em ajudar o aluno a construir sentido sobre o conteúdo e isso começa com a mediação didática por parte do professor. Mediação didática é a “tradução” do conteúdo numa linguagem que o aluno entenda. A mediação didática abre as portas para a “negociação de sentido” que é um movimento interno que o aluno faz de aproximação do que ele conhece com o que ele está conhecendo. O caminho é aproximar-se do mundo de nossas crianças e jovens. O celular, o tablete, o game precisam urgentemente estar presentes na sala de aula de forma a aproximar o conhecimento do contexto de vida do aluno.
2) Num mundo repleto de estímulos eletrônicos e digitais, como o professor pode desafiar e instigar seus alunos. A solução livro, lousa e giz ainda é viável? Por que?
Instigar é mais do que motivar. É provocar e convidar à superação. A tríade livro-lousa-giz pode sim ser um instrumento de instigação se bem utilizada pelo professor. Já vi aulas altamente instigantes a partir desse trio de recursos, assim como já vi aulas eletrônicas e totalmente digitais entediantes e desinteressantes. Acho que a tecnologia é componente muito importante da relação ensino-aprendizagem, mas não determinante. As habilidades de argumentar, envolver e contar histórias são essenciais para o processo de instigação. Acho, inclusive, recomendável a potencialização desse modelo como contraponto “humanizante” da relação de aprendizagem num mundo tão eletrônico e tão digital.
3) A aprendizagem dos alunos pode ser o único parâmetro de avaliação, do desempenho dos professores?
Já sabemos que a aprendizagem do aluno depende de diversas variáveis, dentre elas do repertório cultural com o qual o aluno chega à escola, que por sua vez está ligado ao nível socioeconômico. Outra variável é a infraestrutura da escola e a disponibilização de recursos de aprendizagem. A ação do professor é a principal variável da aprendizagem do aluno, mas está longe de ser a única.
4) De quem é a responsabilidade quando o aluno não aprende?
A aprendizagem do aluno é um processo diretamente ligado a três instâncias: a ação do aluno, a ação do professor e a ação da escola. Quando o aluno não aprende, podemos dizer que essas três instâncias dividem a responsabilidade. A ação do aluno pode ser gerida através do processo de avaliação da aprendizagem, que visa, num primeiro nível, detectar o que foi aprendido. A ação do professor é objeto do processo de avaliação do desempenho docente que tem, na sua essência, o objetivo de detectar o quanto as atitudes do professor potencializam ou não a aprendizagem do aluno. Por fim, a forma de funcionamento da escola como um todo é outro fator corresponsável pelo quanto um aluno aprende. Avaliar a efetividade dos processos que compõem a escola e a forma como eles se inter-relacionam é o principal foco da avaliação institucional. O gestor escolar precisa estar atento à gestão dos três níveis de avaliação e deve construir um plano de execução e acompanhamento de cada instância. Especial atenção, porém, deve ser dada à avaliação do desempenho docente, em função da complexidade dos elementos envolvidos e das relações que o compõem.
5) Sobre o novo ensino médio, quais considera serem os pontos positivos e negativos ?
Positivos: não obriga o aluno a estudar treze disciplinas obrigatórias como se todos almejassem a universidade nesse momento de vida; possibilita o aprofundamento na área de maior interesse para aqueles que pretendem entrar na universidade; torna possível a formação profissional em nível técnico para aqueles que precisam ingressar mais rapidamente no Mercado de Trabalho e com isso torna o Ensino Médio mais democrático; retira do Ensino Médio a responsabilidade de ser o “redentor” da Educação Básica, tentando ensinar a qualquer custo tudo que não foi aprendido no Ensino Fundamental.
Negativos: A progressiva migração para o horário integral pode afastar alguns alunos que precisam trabalhar em meio expediente, o que exigirá providências de reestruturação do Ensino Médio no formato EJA (Educação de Jovens e Adultos) noturno; serão necessários altos investimentos no aparelhamento das escolas e na formação de professores para que o modelo dê certo.
6) O Sr defende que a autoestima é o combustível do professor no processo ensinar e apreender. Como se manter motivado, se o desrespeito e o medo muitas vezes o dominam os professores?
É fato que o desrespeito à profissão em todos os sentidos contribuem para a diminuição da autoestima do professor e para a desmotivação com a profissão. Antes de mais nada, o professor é gente e é afetado por todo esse processo em que estamos inseridos. Penso que a capacidade do professor de se auto motivar não é infinita. Tenho visto muitos professores altamente comprometidos com a sua profissão desistirem, o que é muito triste. Acho que chegamos ao fundo do poço e a mola propulsora será o quanto que educar nos faz feliz, mesmo com os entraves. Lembro-me nesse momento de uma entrevista da grande Fernanda Montenegro que, ao ser perguntada o que ela diria a alguém que quisesse seguir a carreira de atriz, surpreendeu a repórter dizendo: “Eu diria: desista!”. Após o choque da resposta, explicou, “Se a pessoa não insistisse e, de fato, desistisse, é porque não tinha a energia necessária. Mas, se insistisse na ideia, dizendo que não saberia viver sem o ato de educar, eu diria: vá em frente!”.
7) Muitos pais acreditam que os professores devem, além de ensinar, educar seus filhos, tirando grande parte da responsabilidade que deve existir no ambiente familiar. Qual sua opinião?
A família precisa educar para os valores morais de forma que a criança chegue na escola em condições de ser educada para os valores sociais, coletivos. Já sabemos que a família não vem cumprindo bem o seu papel. Esse discurso já é antigo e batido. Com relação a essa questão eu gostaria de deixar algumas reflexões:
1- Se a escola cruzar os braços diante da inabilidade da família em cumprir o seu papel, podemos fechar todas as escolas e pensar num novo modelo de educação socializadora. Penso que a escola precisa se reinventar nesse sentido. Oferecer espaços de discussão e formação da família é um dos caminhos que tenho visto dar bons resultados.
2- Apontar dedo uma para outra só vai reforçar o conflito. Nesse tocante afirmo que “Somos todos Família!”. Professores também são pais e mães que estão em conflito na educação de seus filhos. Filhos de professores também apresentam problemas na escola (E como apresentam!). Lembro isso para que nos sensibilizemos que só a soma de forças nos levará a algum bom resultado.



