Após mais de um ano de investigações, a Polícia Civil em Franca (SP) concluiu, sem apontar indiciados, o inquérito sobre a jovem Luara Prieto Ribeiro, de 25 anos, morta depois de passar por cirurgia na Santa Casa e ser atendida oito vezes no Pronto-Socorro “Dr. Álvaro Azzuz”.
A auxiliar administrativa começou a reclamar de dores abdominais em 15 de dezembro de 2013. Segundo o pai da jovem, Silson Ribeiro, depois dos oito atendimentos no pronto-socorro ela foi internada na Santa Casa, mas morreu em 9 de janeiro de 2014. A família registrou boletim de ocorrência por morte suspeita e, desde então, o caso vinha sendo investigado.
De acordo com o delegado Luís Carlos da Silva, não ficaram demonstradas, pelo Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp), evidências de erro médico. Ele confirmou, no entanto, que a conduta de um profissional de saúde que participou da cirurgia da jovem será avaliada pelo conselho em nova sindicância.
O pai de Luara, que acusa as instituições por negligência e erros no atendimento, afirma que continuará lutando por Justiça. Ao G1, o Cremesp informou que continua apurando o caso, mas em sigilo. A Secretaria Municipal de Saúde não se pronunciou sobre o caso.
Inquérito
Com mais de 1,2 mil páginas, o inquérito policial concluído esta semana aponta que não há provas de erro médico. Com isso, ninguém foi indiciado por negligência. O delegado afirmou que a conclusão foi elaborada a partir de um relatório do Cremesp, responsável por avaliar o trabalho médico no atendimento à vítima.
Segundo Silva, a conduta de pelo menos 30 profissionais foi analisada pelo órgão. Todos, além de representantes da Secretaria Municipal de Saúde e familiares da vítima, foram ouvidos nas investigações. O inquérito foi encaminhado à Justiça.
“Quem apurou a parte médica foi o Cremesp. Eles entenderam, no decorrer de mais de um ano de análises, que não houve irregularidades no atendimento. Concluíram a sindicância analisando o aspecto geral de todos os médicos. Não temos mais o que fazer. Exceto se o conselho descobrir e apontar um erro”, disse.
Nova investigação
O delegado afirmou que apenas um dos profissionais, envolvido na cirurgia de Luara, teve seu procedimento questionado por possíveis “excessos”. Silva explicou que, para analisar esse caso único, o Cremesp abriu uma nova sindicância interna.
Ao G1, o conselheiro Lavínio Camarim informou que não pode comentar o caso e que as diligências para investigá-lo ainda estão abertas e correm em sigilo. “A sindicância ainda está em processo de averiguação, que já aponta alguns fatos e não foi arquivada. Não podemos falar sobre os aspectos da investigação, já que, por lei, corre em sigilo. As investigações da polícia correram paralelamente. Nós ainda não podemos falar de um parecer”, disse.
Segundo Camarim, o órgão possui até cinco anos para concluir a sindicância. “Queremos concluir o mais rápido possível, mas precisamos respeitar os prazos de cada parte”.
Justiça
O pai de Luara, Silson Ribeiro, ficou revoltado com a conclusão do inquérito e afirmou que não desistirá de cobrar providências pela morte da filha. “Estou chocado com essa conclusão da polícia. Está na cara que foi erro médico. Como uma pessoa de 25 anos, que nunca foi para o hospital, forte igual ela era, entra em um hospital com infecção de urina e, em 20 dias, sai morta? Foi erro médico. Eu quero justiça”, reclamou.
<< Pai da vítima diz que houve negligência no atendimento (Foto: Marcio Meireles/EPTV)
Ribeiro também questiona a conclusão, que menciona a ocorrência de “exageros” durante o tratamento de Luana. “Se existiu exagero, teve erro. Se não precisava fazer a cirurgia, por que fez? Isso também é erro médico. O delegado devia indiciar, caçar o diploma. Eles matam pessoas como se fossem animais e ninguém fala nada.”
Além de registrar o caso na polícia, a família também entrou com um pedido por danos morais na Justiça, que tramita na Vara da Fazenda Pública de Franca desde dezembro de 2014. Nele, os pais de Luara pedem R$ 250 mil. O processo não depende do resultado do inquérito.
“Eu contratei um advogado para acompanhar o processo e vamos continuar lutando. Enquanto eu tiver força, estiver vivo, eu não vou deixar”, afirmou Ribeiro.
O caso
Os problemas de Luara começaram em 15 de dezembro de 2013, quando a jovem passou a sentir fortes dores abdominais. Segundo o pai, a jovem foi medicada no pronto-socorro municipal e posteriormente liberada. As dores, no entanto, permaneceram. Luara voltou à unidade de saúde outras sete vezes, até ser encaminhada para internação na Santa Casa no dia 23 de dezembro, de onde recebeu alta três dias depois.
<< Luara morreu após passar por uma cirurgia na Santa Casa de Franca (Foto: Márcio Meireles/EPTV)
No dia 31 de dezembro, Luara voltou a passar mal e foi novamente encaminhada para a Santa Casa. Segundo o pai da vítima, a jovem passou por cinco médicos diferentes, mas nenhum diagnóstico preciso foi apresentado. Luara fez uma endoscopia em 3 de janeiro de 2014 e passou por uma cirurgia no dia 6. Do centro cirúrgico, ela foi direto para o Centro de Terapia Intensiva (CTI) da Santa Casa. No entanto, a jovem morreu na noite de 8 de janeiro.
A Secretaria de Saúde de Franca abriu sindicância interna na pasta e na Santa Casa. O caso também passou a ser investigado pela Polícia Civil e pelo Cremesp.
Segundo a secretária Rosane Moscardini, o diagnóstico do primeiro atendimento da paciente apontou que Luara tinha apresentado infecção de urina. Em 10 de fevereiro deste ano, durante depoimento na Câmara, Rosane indicou que as investigações estavam encerradas e afirmou ter tomado as providências necessárias. Contudo, alegou sigilo e não revelou quais seriam elas.
Poucos dias antes, em 22 de janeiro deste ano, um laudo divulgado pelo Instituto Médico Legal (IML) apontou que Luara morreu em decorrência de um choque hipovolêmico – também chamado de choque hemorrágico – e de uma hemorragia intra-abdominal.
Amanda Pioli
Do G1 Ribeirão e Franca




