Por Patrícia Villalba – Veja.com
A Globo levou ao ar na noite de ontem (quinta, 1) uma versão diferente de Tim Maia, cinebiografia do “síndico da MPB”, daquela que estreou nos cinemas em outubro. Em formato de docudrama, o longa-metragem de Mauro Lima foi remontado com depoimentos e imagens de arquivo, em dois capítulos. O segundo vai ao ar nesta sexta (2), às 22h40.
Na TV, a narração deixou de ser de Cauã Reymond, no papel do cantor Fábio, e passou para próprio Tim (Babu Santana). Em um camarim, ele repassa sua trajetória desde os tempos de dureza na Tijuca até os anos loucos de rei do soul brasileiro. Entre tantos momentos saborosos da carreira do músico, o primeiro episódio dedicou um espaço considerável para a briga que Tim teve com Roberto Carlos, quando os dois tentavam a sorte no programa de Carlos Imperial. Nelson Motta, autor de Vale Tudo – O Som e a Fúria de Tim Maia (Ed. Objetiva, 2007), livro que originou o filme, Erasmo Carlos e Roberto Carlos falam sobre a amizade e o temperamento difícil de Tim. “Existe a lenda, mas a gente sabe, internamente, que havia uma amizade”, sublinhou Erasmo.

Controverso, como se espera da biografia de um personagem como Tim Maia, o filme apresentou nos cinemas um jovem Roberto Carlos (George Sauma) um tanto desleal e afetado pela fama. Numa cena, quando Tim (Robson Nunes) finalmente fura o cerco de seguranças em torno do amigo para oferecer uma música, um dos assessores joga algumas notas no chão: “Aqui, Tião”, diz, com soberba. Na TV, a cena foi suprimida e o caminho de Tim até Roberto, consideravelmente encurtado – até a paz retomada da amizade com o lançamento da músicaNão Vou Ficar, em 1969. “Tudo o que ele cantou ele valorizou”, disse Roberto. “Ninguém nunca deixou de estender a mão pra ele”, reforçou Erasmo.
Com a opção de detalhar a história do músico por meio das entrevistas, a narrativa deixou o campo do cinema e caiu no didatismo de explicar, por exemplo, quem foram James Dean e Elvis Presley. Foi, claro, uma maneira de mostrar algo além do conteúdo que se viu nos cinemas, em vez de partir as 2h20 de duração em duas sessões. Mas é uma pena que bons momentos do longa, como a passagem de Tim pelos Estados Unidos e tudo o que fez para chegar até lá, tenham sido reduzidos ao limite. No novo formato, vale ainda dizer, o longa se aproximou dos episódios de Por Toda Minha Vida, que homenageou Tim Maia em 2007.
Biografias são campo fértil para polêmicas, que podem ser multiplicadas por mil vezes se o personagem em questão é Tim Maia. Depois de ter surpreendido ao apresentar um Roberto Carlos bem diferente do que se viu nos cinemas, a versão televisiva de Tim Maia, longa-metragem do diretor Mauro Lima que foi exibido pela Globo em duas partes, na última quinta e ontem (2), corrigiu uma falha: destacou, enfim, a importância de Elis Regina na carreira de Tim – ao gravar These Are The Songs em 1969, ela abriu caminho na Polydor para o primeiro disco-solo do músico, lançado em 1970. Grande amiga, mas deixada de lado pelo filme, ela foi citada pelo biógrafo Nelson Motta quando o docudrama abordou a fascinação das cantoras brasileiras pelo rei do soul – dali, a narrativa foi para Marisa Monte, Ivete Sangalo e, acredite, Cláudia Leitte, com direito a “participação especial” de Daniel (sim, no palco do esganiçado The Voice Brasil).
Hyldon, parceiro de Tim que na época do lançamento do filme reclamou por não ter sido incluído, também apareceu para falar sobre a personalidade forte do amigo. “Se ele soubesse o quanto era querido, teria se cuidado mais”, disse, por fim. O depoimento é o mesmo que compôs o especial Por Toda a Minha Vida, que a Globo exibiu em 2007.
Apesar das aparentes correções – mais fáceis de fazer com material de arquivo do que no campo da dramaturgia, que demanda negociações complicadas de direitos autorais e de imagem –, momentos importantes do filme foram de novo suprimidos e passagens espinhosas da vida do cantor, lembradas com leveza. Caetano Veloso lembrou, por exemplo, da folclórica dificuldade de Tim em cumprir horários e compromissos, como quando ele simplesmente faltou ao programaChico & Caetano, em 1986 – por sorte, o diretor Roberto Talma mandara gravar o ensaio, um dia antes. “Isso faz parte do charme do Tim Maia”, disse Caetano no palco, ao justificar a ausência do convidado para os telespectadores.
Neste ponto, não se pode deixar de notar que a versão televisiva não mostrou a mágoa que Tim cultivou da Globo na sua última década de vida. Após vários “canos” e críticas à direção da emissora, ele se tornou persona non grata nos programas da casa – e tratou de reclamar aos quatro ventos, inclusive numa famosa entrevista ao Jô Soares Onze e Meia, em 1998, no SBT. “Há dez anos eles não deixam eu me apresentar”, disse. “Não estou dizendo que sou um anjinho, mas acho que somos todos brasileiros e precisamos nos unir”, completou, ao enfatizar que se sentia perseguido e que a fama de faltoso dificultava sua carreira. Sem ser convidado para cantar uma música sequer durante anos, ele só voltou à tela da Globo no dia em que morreu, 15 de março de 1998, nas diversas homenagens póstumas que lhe rendem até hoje.
Em cartaz no país por seis semanas, Tim Maia atraiu pouco mais de 800 mil espectadores aos cinemas, do fim de outubro ao começo de dezembro. Na TV, na versão docudrama Tim Maia – Vale o que Vier, a produção alcançou ótimos 28 pontos no Ibope. A remontagem do filme não foi feita pelo diretor Mauro Lima, que chegou a recomendar aos fãs do cantor, em postagem no Instagram, que não vissem a minissérie da Globo antes do longa.
Em paralelo à polêmica, a música de Tim, sempre maior do que tudo isso, andou na boca do povo nas redes sociais – a hashtag #TimMaia foi pura poesia nos últimos dois dias. Abaixo, ouça o belíssimo dueto de Elis e Tim em These Are The Songs:



