Na USP (Universidade de São Paulo), campus de Ribeirão Preto, 53 funcionários exercendo cargos que exigem apenas o ensino fundamental, como vigias e jardineiros, ganham mais do que o salário inicial de um professor titular com dedicação de 24 horas semanais em ensino e pesquisa e que, para ser admitido, precisa ter título de livre-docência, um dos mais importantes da carreira acadêmica.
O levantamento foi feito com base na folha de pagamento dos 2.946 funcionários ativos do campus. No dia 19, o A Cidade mostrou que 269 docentes recebiam salário superior ao do governador Geraldo Alckmin (PSDB), de R$ 20.662.
Esses não são, entretanto, os únicos supersalários da USP-RP. Um pedreiro com 28 anos de universidade ganha R$ 9 mil, 46% a mais do que um professor titular em Regime de Turno Completo, que ganha inicialmente R$ 6,1 mil.
Quem presta concurso público para carreiras que não exigem nem o Ensino Médio na USP-RP começa ganhando, no mínimo, R$ 1,9 mil. Entretanto, com as progressões e benefícios concedidos pela universidade, além de incorporações de cargos de chefia, chegam a quintuplicar o valor final.
Entre todos os 556 funcionários da ativa em cargos que exigem o Ensino Básico, a média salarial é de R$ 4,1 mil (ver infográfico). Em média, eles foram contratados há 18 anos. No mais recente concurso público para professores da Educação Básica, o Estado oferece salários iniciais de R$ 1,5 mil.
“Nós não temos culpa se o salário é considerado alto, tenho mais de 30 anos de USP e um amor enorme pela universidade. Não somos os culpados pela crise financeira, isso é falha de gestão. Dediquei minha vida toda ao trabalho na USP, não é justo sermos discriminados agora”, afirma um vigia, sem querer se identificar.
As distorções ocorrem também entre os 960 funcionários com cargos técnicos. Uma secretária com 25 anos de USP ganha R$ 13,7 mil, mais que 164 docentes da Faculdade de Medicina em Regime de Dedicação Exclusiva, ou seja, que por contrato atuam apenas em ensino e pesquisa na universidade.

102 superaposentadorias
Dos 560 aposentados que compõem a folha de pagamento da USP de Ribeirão Preto, 102 – todos ex-docentes – recebem salário superior ao do governador Geraldo Alckmin (PSDB). Segundo decisão do Supremo Tribunal Federal no mês passado, quem ganhar mais que R$ 20.662 terá que devolver o excedente.
A maior superaposentadoria é de um ex-professor da Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras, que recebe R$ 28,2 mil mensais. Juntas, as dez maiores aposentadorias somam R$ 277 mil.
Excluindo os docentes, o ex-funcionário com maior aposentadoria é uma Analista de Assuntos Administrativos, que recebe R$ 18,5 mil mensais.
Entre os cargos que exigem apenas ensino básico, o campeão é um motorista, com R$ 6,1 mil.
Sindicato alerta para injustiça contra servidor
Diretor do Sintusp (Sindicato dos Trabalhadores da USP), Luis Ribeiro alerta que a forma como os salários foram divulgados pela universidade dá a entender que os trabalhadores ganham mais do que deveriam ou praticam irregularidades.
“No serviço público temos direito a quinquênio, sexta parte e incorporação dos cargos de chefia, por exemplo”.
Ele diz que os funcionários estão sendo, injustamente, chamados de marajás. “Estamos falando de pessoas que dedicaram uma vida inteira à universidade, com mais de 30 anos de carreira, contribuindo para que ela se tornasse a principal da América Latina”, afirmou.
Ribeiro diz que os servidores estão sendo colocados como culpados para esconder falhas de gestão na USP e pede maior transparência. “Onde estão os contratos de obras na universidade, que o sindicato denuncia com frequência estarem irregulares?”, diz.




