
O disco “Crucificados pelo Sistema”, de 1984, marcou não só a estreia não só do Ratos de Porão como foi o primeiro trabalho individual de uma banda punk da América Latina a ser lançado. Em março a formação original da banda se reuniu para dois shows em comemoração, tocando alguns clássicos do álbum e outras músicas do início da carreira, ou como o vocalista João Gordo definiu em uma entrevista pouco antes da reunião, “o limbo do limbo”.
Dois meses depois a banda lança o primeiro álbum de inéditas desde “Homem Inimigo do Homem”, de 2006. “Século Sinistro” foi apresentado em um show ontem no Sesc Pompeia. Em uma coletiva de imprensa na sexta-feira Gordo afirmou que o repertório do show seria composto principalmente de clássicos, com apenas três ou quatro músicas novas porque “lançou o disco, tem que mostrar né”, mas como complementou Jão, “a galera quer ouvir ‘Beber até Morrer’, ‘Agressão/Repressão’ e foda-se”.
É nas infinitas variações de “foda-se” que está a “poesia punk” do Ratos de Porão. E não só porque João Gordo gosta de escrever rimando – “parece cantiga de roda”, afirma o próprio, reforçando que não é um poeta -, mas porque o punk é uma música de confrontação direta, e a honestidade brutal dos versos complementa a brutalidade do som rápido para transformar protestos em arte.
“Tudo que vira modinha dá merda”
Até porque, qualquer outra forma de protesto está sujeita à manipulação, pelo menos na opinião de João Gordo. “Quando falaram ‘o gigante acordou’ já vi que ia dar merda. Que nem os caras pintadas”. Gordo se auto intitula um pessimista, e diz que não vê nenhuma solução para um país que repete seus erros: “Eu queria que fosse um lugar legal, mas vejo o País ridículo ha muitos anos, tanto que ‘Crucificados’ é atual até hoje. O ‘Brasil’ [álbum de 1989] foi praticamente feito ontem, a capa com o policial batendo no skatista. O País é uma bosta, não sou eu que sou profeta, não”.
Um dos novos alvos do Ratos é a cultura do compartilhamento e nosso relacionamento atual com a tecnologia: “Século sinistro é o quê? Você vai morrer e tem que registrar com o iPhone pra aparecer no Facebook. A capa foi ideia minha”, diz João “e é o fim do mundo e todo mundo registrando o momento, é cômico, tá descontrolado. A música ‘Viciado Digital’ fala disso”.
Criada em parceria com Ricardo Tatoo, a capa é feita com stencil pois de acordo o artista essa é uma “é uma estética punk que deu origem ao grafite brasileiro”. E realmente é, tanto pela forma de propagação repetida de mensagens quanto pelo conteúdo dessas mensagens.
Disciplina metaleira
Tatoo chegou ao Ratos por Igor Cavalera, que já trabalhava com o artista desde os tempos de Sepultura. O baterista deu para Gordo uma arte feita por Tatoo, que Gordo gostou tanto que emoldurou e pendurou no banheiro de casa. “Ele me mandou um e-mail falando: ‘Salve seu Ricardo. Lembro de você sempre que tô cagando’”.
A amizade de Gordo e Cavalera é antiga. Logo no segundo disco da carreira o Ratos já havia adotado um som mais pesado, mas foi em 1986 que o metal foi incorporado de vez no punk/hardcore da banda. Nessa época o Ratos de Porão era muito próximo do pessoal do Sepultura, e esse relacionamento trouxe mudanças tanto no som quanto na atitude de “punks retardados” do Ratos.
“O metal trouxe uma disciplina que a gente não tinha”, diz Gordo. “Mas não é para qualquer um”, complementa Jão, “tem que tocar pra caralho”.
Fazer parte de um movimento é não ficar parado
As mudanças que o Ratos de Porão fez em seu som ao longo dos anos sempre sofreram questionamentos e muitas vezes foram alvos de críticas. E como é inevitável no underground, as críticas à música sempre vem atreladas a uma vilanização do sucesso. A descrição da banda no Facebook é “Desde 1981 traindo o pseudo movimento de alguns idiotas”, mas Gordo sempre foi o principal bode expiatório das acusações.
Ele dá risada ao afirmar que “carrega a cruz do movimento”, e quando Jão diz que ele não é mais tachado de traidor ele explica porque não liga mais para o título infame “Quem acha isso é idiota, mas eu não sou burro. Em País de ladrão pilantra você conseguir ganhar dinheiro sem prejudicar ninguém é uma arte. O fato de ser pioneiro do movimento no punk já me chamaram de traidor, de falar que fazia hardcore e não punk. Fiz metal, traidor de novo, e por aí vai”.
Mas até pouco tempo não era assim: “era mó foda-se, mó deus dará, aí eu assisti o documentário do Kiss e vi o Paul Stanley falando ‘se você não está ganhando dinheiro com a sua banda, alguém está’”.
A profissionalização da tosquice
E realmente, basta olhar para as bandas que não só sobreviveram como continuaram a fazer sucesso em toda a história do rock para ver que por maior que seja o elemento de “tosquice” necessário para manter um gênero musical genuíno à suas origens, é impossível se manter na música sem de uma certa forma se tornar um profissional. Mas não é de uma hora pra outra que isso acontece.
“Quando eu faço um show com o Ratos tenho uma infraestrutura bem melhor que quando toco com o Periferia S.A. ou o Traças, que toca pra 15 nego no bar do Joca. Mas é dessa forma que o underground sobrevive, é o lance do DIY. Ficar mostrando a música pela internet é muito relativo, o cara escuta ali na hora e esquece no momento seguinte. Banda tem que tocar em qualquer buraco que aparecer, para adquirir respeito e experiência”, explica Jão, reforçando que não pode responder pelo movimento como um todo.
Nenhum parto é fácil
Outra coisa que ajuda é o fato de que mesmo no auge do sucesso não se trata de um som que rende fortunas, o que facilita manter a amizade entre todos os envolvidos sem “putaria e pilantragem, querer passar a perna”. Além disso, por mais que a quantidade de novos fãs seja cada vez menor, o público é fiel e se recicla, transformando banda e plateia em uma espécie de família.
“E sabe como é, relacionamento tem que ter filho”, diz João sobre o novo lançamento da banda.
“Século Sinistro” foi gravado no estúdio Family Mob, de Jean Dolabella (ex-Sepultura), e de acordo com Gordo o resultado foi “um dos melhores de todos os tempos”. O estúdio foi escolhido às pressas depois que um amigo “fumou a grana” que ele havia pago pela primeira opção, mas a banda teve uma feliz surpresa.
O estúdio analógico de Dolabella agradou os “caras do século passado”, que preferem esse tipo de processo por não conseguirem se acostumar com “pro tools e o som metálico de alumínio que existe hoje”. Ao mesmo tempo a produção de Cabelo criou um som “limpo, inédito na história do Ratos”.
“Precisa ver se vai agradar os outros, mas pelo menos a gente agradou. Já é um começo”, completa Jão.
Fonte: Território da Música



