
Uma família de Franca (SP) denuncia um suposto caso de negligência médica na Santa Casa da cidade, que terminou com a morte da caseira Lúcia Modesto da Silva, de 51 anos, no último dia 28 de maio. O filho da vítima, Samuel Modesto da Silva, afirma que a mãe morreu por complicações decorrentes de uma cirurgia de vesícula. A Polícia Civil e o Conselho Regional de Medicina (Cremesp) investigam o caso.
Silva conta que a mãe esperava pela cirurgia há três anos e só foi chamada para realizar os exames pré-operatórios no mês passado. Entretanto, o procedimento não foi realizado na Santa Casa de Franca, como era esperado, mas em um hospital em São Joaquim da Barra (SP). A determinação teria partido da Secretaria da Saúde por falta de leitos.
Dois dias após a cirurgia, porém, Lúcia recebeu alta, mesmo sentido muitas dores e tontura, como contou o filho, que a acompanhou durane todo o tempo. Silva relembra que levou a mãe a um Pronto Socorro, que constatou infecção e a necessidade de nova operação, que não teria sido realizada porque não havia leitos disponíveis para cirurgia na Santa Casa.
“Meu irmão percebeu um jogo de empurra entre os médicos e já ia na Polícia fazer o boletim de ocorrência. Mas, por causa da demora, do descaso, ela passou mal, com muita falta de ar. Puseram o oxigênio e ela melhorou. Mas, depois, teve falta de ar de novo, com crises convulsivas, e não resistiu”, afirma Silva.
De acordo com o atestado de óbito, uma das causas da morte foi choque séptico, que é provocado por infecção generalizada. O filho diz que a família não se conforma por que, apesar das dores que Lúcia sentia antes da cirurgia, o estado de saúde dela era bom. “Estava fazendo normalmente as atividades dela, trabalhando, sem nenhum outro tipo de problema de saúde”, afirmou o filho.
Lúcia Modesto da Silva deveria ter passado, segundoa família, por nova cirurgia, o que não ocorreu
(Foto: Marcio Meireles/EPTV)
Investigação
O caso foi registrado na Polícia Civil como morte suspeita. O delegado Luís Carlos da Silva afirmou que aguarda o laudo da necropsia para começar a ouvir as pessoas envolvidas no caso. Nenhuma hipótese está descartada, segundo Silva.
O Cremesp também abriu sindicância para apurar as circunstâncias da morte. O conselheiro Lavínio Camarim disse que pretende apurar porque Lúcia foi operada em São Joaquim da Barra e não na Santa Casa de Franca, onde realizou os exames pré-operatório. “Até entenderíamos se um caso de alta gravidade fosse levado para uma cidade de maior recurso. Mas aqui o caso é diferente. Foi uma cirurgia teoricamente de rotina que foi levada para uma cidade com recurso menor”, declarou.
Camarim afirmou se preocupar com a frequência de mortes por suposta negligência na região de Ribeirão Preto (SP). No dia 16 de maio, a estudante Gabriela Zafra, de 16 anos, morreu após procurar atendimento por cinco vezes em três unidades de saúde de Ribeirão: foi diagnosticada com torcicolo, caxumba, virose e intoxicação alimentar. O laudo do exame necroscópico feito pelo Serviço de Verificação de Óbito (SVO) confirmou que a morte foi por meningococcemia, infecção generalizada provocada pela mesma bactéria que causa meningite.
Delegado aguarda laudo da necropsia para ouvirenvolvidos (Foto: Marcio Meireles/EPTV)
Outros dois casos investigados são o da aposentada Fernanda da Conceição Cardoso, de 79 anos, que teria procurado atendimento após uma queda e sido liberada, mas morreu cinco dias depois, no dia 1º de março. Além do caso da gerente operacional Laís Fernanda Balan, de 22 anos, que morreu em 24 de março, após ser atendida e liberada da Unidade Básica Distrital de Saúde (UBDS) Central.
Santas Casas
A Santa Casa de Franca contesta a versão da família de Lúcia. Segundo o hospital, que se manifestou por meio de nota, a paciente foi prontamente atendida e submetida a tratamento contra possível abcesso pós-cirúrgico e melhora da função renal, que estava comprometida. A Santa Casa alega ainda que, se uma nova cirurgia fosse feita nessas condições, colocaria a paciente em risco elevado.
“A paciente mostrou sugestiva melhora clínica, comprovada pelos exames complementares e dados vitais; porém, a mesma, no dia de submeter-se a intervenção cirúrgica, apresentou agravo súbito e inesperado, evoluindo com parada cardiorrespiratória sem reversão às manobras atribuídas, vindo a óbito”, diz a nota.
Na prefeitura, ninguém se manifestaria sobre o assunto, segundo a assessoria de imprensa.
Já na Santa Casa de São Joaquim da Barra, onde a cirurgia foi feita, o caso está sendo apurado. A assessoria informou que se reuniu nesta terça-feira (30) com o médico para saber detalhes do ocorrido e que ninguém da família entrou em contato para informar que a paciente havia piorado.

Atestado de óbito mostra choque séptico como uma das causas da morte (Foto: Marcio Meireles/EPTV)



