“Não é a primeira, nem a última vez que uma coisa dessas vai acontecer. A culpa é dele, ele que pulou no bagulho. Reagiu, tomou tiro.” A declaração é do jovem de 17 anos, suspeito de matar o empresário Fabiano Lino de Azevedo, de 35 anos, com um tiro, durante um assalto na noite da última sexta-feira (4), em Ribeirão Preto (SP). O adolescente foi detido na tarde do dia seguinte e reconhecido pela namorada da vítima, que também foi rendida no roubo.

Azevedo foi abordado pelo menor e por outro homem, quando saía do escritório em que trabalhava, no bairro Alto da Boa Vista, acompanhado da namorada. Ao ser rendido, o empresário reagiu e entrou em luta corporal com o suspeito, que estava armado e atirou três vezes: um dos disparos atingiu o peito da vítima, que chegou a ser socorrido, mas morreu no hospital.
“Ele me imobilizou, eu liguei o automático e dei um tiro nele mesmo. Isso vai estar sempre acontecendo no mundão. Quantos que não vai (sic) preso aí por dia por causa disso?”, afirmou o menor, detido pela Polícia Militar na tarde de sábado (5) em uma casa no bairro Parque Ribeirão – outros dois adolescentes foram apreendidos no mesmo local, mas acabaram sendo liberados.
A dupla chegou a fugir no carro do empresário, levando dois mil dólares e dois notebooks. Ao ser detido, entretanto, o adolescente alegou que os pertences ficaram com o comparsa, que conheceu na noite do crime. “O desgraçado sumiu com o carro. Ele tava (sic) comigo lá, me deixou na quebrada e sumiu. Ele é usuário de crack, ele que me chamou para roubar.”
Após ser ouvido pela polícia, o menor foi encaminhado ao Núcleo de Atendimento Integrado e levado à Fundação Casa. “Não é que eu me arrependo (sic). Infelizmente acontece, a gente não pode voltar atrás”, disse.
Transtorno de caráter
A frieza na atitude e nos relatos surpreende, mas é cada vez mais comum nas delegacias, principalmente entre menores de idade, explica o psicólogo Sérgio Kodato, coordenador do grupo de pesquisa “Observatório da Violência”, na Universidade de São Paulo (USP). Kodato afirma que esse tipo de comportamento é classificado como psicopatia, ou falha de caráter, e tem origem em experiências negativas vividas na infância, como abandono, rejeição ou violência por parte dos pais.

negativas vividas na infância, diz Sérgio Kodato
(Foto: Reprodução/EPTV)
“É um adolescente com nível de inteligência normal, ou superior, mas com ausência de culpa. O indivíduo comete atos atrozes, mas não se repende daquilo que fez. É uma falha de caráter, que vai levar a um indivíduo frio, manipulador, calculista, que não tem sentimento de piedade em relação à vítima. Mais do que isso, ele entende que a vítima reagiu, então é um ato perfeitamente normal atirar”, diz o psicólogo.
Ainda segundo Kodato, a ausência de leis mais severas e de um trabalho psicossocial de recuperação do menor infrator colaboram para reforçar a criminalidade. “Esse menino tem 17 anos de idade e, por um crime de homicídio, vai ficar internado por, no máximo, três meses. O discurso que você ouve entre os meninos na Fundação Casa, é de que lá é um SPA.”
Para o psicólogo, é fundamental que os menores infratores passem pelo que ele chama de “terapia do vínculo”, ou seja, estabelecesse um elo com uma espécie de “padrinho” que fosse responsável pela reestruturação social e emocional do criminoso. “Nos Estados Unidos, quando um menino sai da unidade prisional, já existe um padrinho, que vai acolhe-lo, arrumar emprego, etc. Se você devolver para o mesmo lugar de onde ele veio, vamos continuar repetindo o mesmo ciclo.”
Do G1 Ribeirão e Franca



