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Música popular brasileira nos tempos da ditadura

01/04/2014
em Sem categoria
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Por Antônio do Amaral Rocha –  UOL Música

O golpe militar de 31 de março de 1964 não ressoou apenas na área política, mas teve também grande impacto nas artes. A música serviu como uma importante ferramenta para abordar os acontecimentos que envolviam a ditadura militar. Mesmo com a censura a partir do AI-5, os artistas brasileiros burlavam a repressão em canções com letras disfarçadas e repletas de metáforas. Conheça, a seguir, a história de algumas importantes músicas que deram seu recado em mensagens implícitas.

musicaDitadura2

“Cálice” – Chico Buarque e Giberto Gil, registrada no disco “Chico Buarque” de 1978 
A música foi composta em 1973 e teve a sua execução censurada no show Phono 73, realizado em maio daquele ano no Centro de Convenções do Anhembi, em São Paulo, sendo liberada só em 1978. Chico e Gil tiveram os microfones desligados no momento da apresentação, mesmo cantarolando apenas a melodia. Prova que a censura não era praticada só pelos órgãos do governo. Na letra, as palavras de Jesus (“Pai, afasta de mim esse cálice”) remetem à época sombria, e a palavra cálice funciona como metáfora do sofrimento e remete o som de “cale-se”, palavra de ordem na ditadura – Acervo UH Folhapress

musicaDitadura3

“Acorda Amor” – Leonel Paiva e Julinho da Adelaide, gravada no disco “Sinal Fechado”, de 1974 
O sinal estava fechado para Chico, que não podia gravar as próprias músicas naquela época, já que a censura era implacável e não deixava passar nada que levasse o seu nome. Neste álbum, Chico interpreta outros compositores, com exceção de “Acorda Amor”, registrada com pseudônimos para burlar a censura. A letra relata um estado policial: “Sonhei que tinha gente lá fora / Batendo no portão, que aflição / Era a dura, numa muito escura viatura…- Folhapress

musicaDitadura4

“Roda Viva” – Chico Buarque, faixa do disco “Chico Buarque de Holanda”, 1968, com o MPB4 
Composta para a peça teatral “Roda Viva” e inscrita no 3º Festival da TV Record de 1967, a música ficou em terceiro lugar, e ganharia ainda uma nova dimensão depois que o CCC (Comando de Caça aos Comunistas) invadiu o teatro onde a peça era apresentada, em julho de 1968, destruindo os cenários e seviciando os atores. A letra traz uma mensagem de desalento, retratando o aspecto soturno da vida daquela época. “Mas eis que chega a roda-viva / E carrega a viola pra lá”. Roda viva é uma metáfora para a repressão e o estado policial –  Folhapress

musicaDitadura5

“Somos Todos Iguais Nesta Noite” – Ivan Lins e Vitor Martins, faixa do disco homônimo de 1977 
A letra usa metáforas circenses e compara a vida a um circo. Ao afirmar que “somos todos iguais nesta noite”, a palavra noite ocupa o lugar de ditadura e quer mostrar que todos os atores deste circo estavam em situação de sofrimento “pelo chicote dos domadores” –nada mais do que o estado repressivo que o país enfrentava naquele tempo. A vida passa a ser o “ensaio diário de um drama” e os iguais viviam no “medo da chuva e da lama”, sempre reafirmando a dificuldade de se viver sobre a vigência da ditadura  – Reprodução

musicaDitadura6

 “O Bêbado e a Equilibrista” – João Bosco e Aldir Blanc, registrada no disco “Linha de Passe” (1979), de João Bosco, mas foi a gravação de Elis Regina no disco “Essa Mulher” (1979) que deu fama à canção
Caracterizou-se na mais icônica música contra a ditadura, quando os movimentos organizados já desafiavam as ordens da repressão e se reuniam em comitês pela anistia e pelo fim do regime. Apesar de se referir ao sofrimento de Marias, Clarices e Henfil, que tinha o irmão Betinho exilado, e “tanta gente que partiu num rabo de foguete”, a canção revelava uma ponta de esperança. Foi adotada como Hino da Anistia – U. Dettmar/Folhapress

musicaDitadura7

“Clube da Esquina nº 2” – Milton Nascimento, Lô Borges e Márcio Borges, gravada no disco “Clube da Esquina”, de 1972
Milton foi um artista perseguido pela ditadura, mas sempre pareceu “sofrer calado”. Teve o disco “Milagre dos Peixes” quase que totalmente censurado, a ponto de ser lançado sem letras. Em “Clube de Esquina nº 2”, a letra descreve sonhos que não envelhecem e moços que caminham “em meio a tantos gases lacrimogêneos” (…) “e o rio de asfalto e gente”. Não é necessário muito esforço para se divisar manifestações por mais liberdades e relatos de um tempo de enfrentamentos – Folhapress

musicaDitadura8

“Menino” – Milton Nascimento e Ronaldo Bastos, composta em 1968, mas Milton só a gravou no disco “Geraes” (1976) e Elis Regina em “Saudades do Brasil” (1980)
A música trata da morte do estudante Edson Luís, aos 18 anos, quando deu-se a invasão ao restaurante Calabouço, no Rio de Janeiro. Esse episódio deflagrou a “Passeata dos Cem Mil”, uma das maiores manifestações de estudantes e da classe artística contra a ditadura na década de 1960. Diz a letra: “Quem cala sobre teu corpo / Consente na tua morte / Quem cala morre contigo / Mais morto que estás agora…- Reprodução/Robens Valente/Folhapress

musicaDitadura9

 “Pra não Dizer que não Falei das Flores” – Geraldo Vandré 
A mais icônica canção contra a ditadura ganhou o segundo lugar no 3º Festival Internacional da Canção de 1968 e desagradou ao regime, especialmente quando diz: “Há soldados armados, amados ou não / Quase todos perdidos de armas na mão / Nos quartéis lhes ensinam uma antiga lição / De morrer pela pátria e viver sem razão”. Em dezembro de 1968, foi editado o AI5 e o regime endureceu ainda mais, com prisões, torturas e exílio. Vandré saiu do país e só retornou em 1973, lançando o disco “Das Terras do Benvirá”, abandonando a carreira depois de então. Em 2014, Vandré reapareceu no palco da cantora Joan Baez que interpretou a canção, mas se recusou a acompanhá-la no palco – Edvaldo Ramos Silva/Folhapress

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“Que as Crianças Cantem Livres” – Taiguara, 1945-1966 
O autor nunca escondeu sua militância. Era estudioso do marxismo e tinha Luiz Carlos Prestes como ídolo. Foi um dos artistas mais proibidos durante todo o regime militar e teve perto de 80 músicas censuradas. Exilou-se em Londres de 1973 a 1975. A música, gravada no disco “Fotografias” (1973), propunha a busca da liberdade num registro lírico: “E que as crianças cantem livres sobre os muros / E ensinem sonho ao que não pode amar sem dor / E que o passado abra os presentes pro futuro / Que não dormiu e preparou o amanhecer” – Folhapress

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“Vai Passar” – Chico Buarque e Francis Hime, registrada no disco “Chico Buarque” de 1984, ainda sob o regime da ditadura que acabaria só em 1985
Aqui, Chico descreve o país como “a nossa pátria mãe tão distraída / Sem perceber que era subtraída / Em tenebrosas transações”, cujos filhos “erravam cegos pelo continente”, numa clara referência ao regime que o país vivia. Mas tudo é metaforicamente resolvido quando o povo se dá conta disso e transforma a vida num Carnaval. Na música, a expressão “vai passar” adquire duplo sentido: o da passagem do bloco carnavalesco e a superação do tempo das trevas da ditadura – Folhapress

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“Sabiá” – Chico Buarque e Tom Jobim 
Vencedora do 3º Festival Internacional da Canção de 1968, desagradou ao público que torcia pela música de Geraldo Vandré. A letra pode ser definida como uma nova “Canção do Exílio”, que Chico iria experimentar logo depois quando foi morar na Itália. É duplamente premonitória, tanto de um tempo mais repressivo que viria quanto o de uma volta após o exílio. “Vou voltar / Sei que ainda vou voltar / Para o meu lugar / Foi lá e é ainda lá / Que eu hei de ouvir cantar / Uma sabiá”. Foi registrada no disco de Chico Buarque “Não Vai Passar – Vol. 4”, de 1993 – Folhapress

Tags: Especiais

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