A exposição “O Dragão entre Dois Mundos” do artista plástico africano, nascidoem Porto Novo, Gérard Quenum, apresenta obras, pinturas e esculturas produzidas inspiradas no contato com a cultura brasileira.
O artista é o primeiro participante do recém criado projeto “Artista Residente” do Museu Afro Brasil, e representa uma nova geração da Arte Contemporânea do país.
Razões sentimentais unem dois países onde Agudás mantém vivas as tradições culturais brasileiras levadas por antigos escravos de volta à África, e é dessa relação entre os dois mundos que surge a idéia dessas obras do artista.
Além das pinturas, as esculturas e assemblages, igualmente agressivas e provocadoras, são compostas com a mistura de materiais diversos, objetos reciclados e uso de bonecas descartadas, que formam sua identidade.
Segundo Emanoel Araujo, diretor do Museu Afro Brasil e curador da mostra, a obra do artista se caracteriza pela ação de um certo grafismo tenso, agressivo, quase rude, com cores que não propõem nenhuma combinação adocicada para ser consumida.Suas esculturas provocadoras exprimem sentimentos profundos, religiosos, profanos, de dor e de sofrimento, de alegria. Diferente dos artistas africanos, seu pensamento se aproxima dos ocidentais por um desejo de ir de encontro ao sagrado cristão, as formas esguias que desafiam a gravidade são encimadas pelas cabeças de bonecas da manufatura também ocidental para tornar clara essa união Atlântica do fluxo e refluxo. Esse eterno vai e vem das coisas desse mundo.
Suas obras de cabeças de bonecas brancas seria uma provocação perversa, caso o artista a tratasse sem metáforas e sem a subjetividade imposta pela verdadeira expressão de conteúdo e mistério que cada uma propõe ao unir duas culturas com pensamentos e visões tão distintas e ao mesmo tempo tão integradas.
“Vejo-o com sua fragilidade um ousado provocador instigante, um criador, soltando fogo pelas narinas, percorrendo campos minados pelo poder de um dragão entre dois mundos” (Emanoel Araujo, www.museuafrobrasil.org.brl)
Sob o olhar do crítico Olívio Tavares
Emoções e conflitos
Ainda que ele tenha nascido e resida no Benin, o que faz Gerard Quenum é arte contemporânea no sentido ocidental. Em especial no que se refere à consciência do próprio status e às relações de produção e consumo. A arte tradicional africana pertence primordialmente ao domínio do sagrado. Ainda hoje, o artista-artesão da tribo é o continuador de um ofício hereditário, e tem de possuir dotes de feiticeiro, para conseguir infundir em seu produto os poderes mágicos que lhe são requeridos. Trabalha por encomenda, a partir de objetivos propostos de fora para dentro. Quenum, não. Produz em seu próprio ritmo e não para o entorno, não por solicitação dos outros, sabendo que a obra acabará sendo vista em galerias e museus de diferentes lugares do mundo. Sua arte é uma forma de expressão pessoal, veículo para suas ideias, emoções e conflitos.
Arte de denúncia
Nosso conceito de beleza – um ideal formal a ser alcançado – não existe na arte africana. Para elogiar um ícone votivo, uma nova imagem no altar dos antepassados, a língua Wolof usará os adjetivos dyeka, yem, maet. Léopold Sédar Senghor, o poeta-presidente do Senegal, os traduzia como “o que convém”, “o que está à medida de”, “o que é perfeito”. Ensinava ainda Senghor: “A bela máscara, o belo poema são os que produzem sobre o público o efeito desejado: tristeza, alegria, hilaridade, terror”. Também na língua Fon, a da nação de Quenum, o termo mais próximo de belo (enhon, com h aspirado) abrange vários significados. Uma máscara que não cause terror suficiente para assustar um mau espírito não merecerá ser considerada enhon. Na África, beleza é eficácia. Assim é que a questão moral (o bom) e a pragmática (o eficaz) estão na raiz da produção de Quenum. O que ele faz é arte engajada, arte de denúncia. A verdade é que em seu continente não existe a arte pela arte.
Dentro do ringue
A pintura de Quenum extravasa sua evidente necessidade do grito imediato, de soltar ideias e emoções com alguma ironia. São telas nascidas de um impulso, de execução em geral rápida mas difícil. Diz ele que ao pintar se sente como um boxeador no ringue, que, por definição, corre o risco de perder aquela luta. A linguagem é de natureza expressionista. A deformação vigorosa não resulta de insuficiência técnica, pois que a fidedignidade na representação não foi mesmo desejada. Toda cultura – e, dentro dela, todo artista capaz – consegue formatar o que lhe é realmente necessário. Técnica se inventa e se aprende.
Belo terrível
Angústias pessoais são palavras que evidentemente não existem, falando-se da arte tradicional africana. Porém, apesar de suas profundas e vívidas raízes, Quenum é um artista à maneira ocidental. Em sua obra tridimensional – os objetos –, perpassam a angústia metafísica, a consciência da maldição da espécie humana, suas contingências, solidão, incomunicação, infelicidade, transitoriedade, seu final inelutável e absurdo. Se algumas de suas esculturas giram em torno da infância abandonada e os terríveis problemas sociais que vê em seu país, a maioria gira em torno do destino trágico do indivíduo e confronta a vida com a morte. Quenum jamais teve a oportunidade de ver os objetos do brasileiro

Farnese de Andrade, mas as produções dos dois se parecem extraordinariamente. (Explica-se: para questões universais, respostas universais.) Suas obras pertencem ao domínio do que se pode chamar belo terrível. Como os objetos de Farnese, os de Quenun despertarão no contemplador entusiasmo ou aversão. Dificilmente deixarão alguém indiferente.
Olívio Tavares – Crítico de Arte
(disponível em www.museuafrobrasil.org.br)



