
Um dos movimentos mais cheios de dignidade (coisa rara) desse período pré-eleitoral foi a escaramuça entre Jean Wyllys e o pastor Jefferson Barros no PSOL do Rio. Começou na semana passada, quando Jean Wyllys rodou a baiana e ameaçou não se recandidatar a deputado federal caso a legenda aprovasse a candidatura do pastor.
“Rodar a baiana”, no caso, é um termo bem escolhido. A origem dele está nos blocos de carnaval do Rio de Janeiro no início do século passado. Para evitar que as moças fantasiadas de baianas tomassem passadas de mão oportunistas, alguns capoeiristas se fantasiavam de mulher, e ao sinal de abuso saiam dando pernada no abusador. Quem estava em volta só via a baiana rodar de repente, daí a (fantástica) expressão.
O deputado Jean Wyllys tem uma das mais surpreendentes, notáveis e combativas trajetórias políticas do país (talvez só comparável à de Romário, nos tempos recentes). Despontou no mais errado dos lugares – o BBB da rede Globo, que ganhou em 2005 – para combater por questões de minorias, principalmente as do movimento LGBT. A “pernada” política que deu desta vez quebrou o cavalo de Tróia que seria a candidatura do pastor.
Acontece que, em 2010, Jean Wyllys foi eleito como o segundo candidato do PSOL, com 13 mil votos, puxado pela expressiva votação de Chico Alencar, com mais de 240 mil votos. Jean Wyllys foi o deputado federal do Rio eleito com menos votos. Nesse meio tempo, adensou muito sua base, tendo sido eleito o melhor deputado federal do Brasil em 2012, pelo prêmio Congresso em Foco.
Como militante gay, Jean Wyllys tem um embate constante com as bancadas e com as lideranças neopentecostais, ponta de lança do moralismo repressivo no país, e é vítima de uma contínua campanha de calúnias. Em 2013, Jean Wyllys, ao lado de Erika Kokay (PT-DF) e Domingos Dutra (PT-MA), protocolou representação criminal por calúnia, difamação, falsificação de documento público, injúria, falsidade ideológica, formação de quadrilha e improbidade administrativa, em atos cometidos pelo deputado Marco Feliciano, por alguns de seus assessores, pelo pastor Silas Malafaia e outras pessoas.
Silas Malafaia era quem estava por trás da infiltração do pastor Jefferson no PSOL, e seu cálculo era simples. Se a votação de Jean Wyllys fosse inferior à do pastor da Assembléia de Deus Vitória em Cristo, e a votação de Chico Alencar fosse novamente suficiente para eleger dois (e apenas dois) candidatos do partido, esse segundo candidato seria Barros, tirando Wyllys do parlamento.
PSOL significa “Partido Socialismo e Liberdade” – o que evidentemente não parece ser o lugar para um pastor neopentecostal. Ainda mais da igreja do obscurantista Malafaia. O próprio Jean Wyllys acha que o “socialismo” do partido às vezes é atrasado em relação às causas de minorias e liberdades individuais. As concepções comunistas clássicas consideram essas lutas “pequeno-burguesas”, e às subordinam à luta de classe dos trabalhadores, pelo socialismo. Evidentemente essa é uma idéia que morreu junto com o século passado.
Em São Paulo, a trapalhada do partido com a promissora (e abortada) candidatura do professor Vladimir Safatle mostrou como o PSOL pensa pequeno. Ainda assim, um PSOL (e um PSTU) mantém um mínimo de coerência política, numa época em que o PT se comporta cada vez mais vergonhosamente, fazendo alianças com o que o país tem de mais corrupto (Maluf, Sarney, Jader Barbalho) e agressivo às conquistas sociais (ruralistas, neopentecostais).
A “pernada” de Jean Wyllys no pastor quinta coluna recebeu apoio expressivo, de Chico Alencar e Marcelo Freixo (hoje personalidade de esquerda do estado, após a candidatura à prefeitura da capital em 2012). E afinal a pré-convenção estadual do PSOL do Rio, no sábado passado, vetou a candidatura do pastor-cavalo de Tróia. Pesou na decisão o pastor ter omitido o fato de já ter sido filiado ao PRB, Partido Republicano Brasileiro, ligado à Igreja Universal de Edir Macedo, legenda do bispo Marcello Crivella, hoje ministro da Pesca – num ministério criado apenas para acomodar o partido.
A invenção do “neopentecostal progressista” ficou só nas intenções do pastor Jefferson e da sua defensora, a deputada estadual Janira Rocha. Ela quase foi expulsa do PSOL no ano passado, acusada de ficar com parte dos salários de assessores e de usar verbas do Sindisprev, o sindicado dos previdenciários do Rio, em campanha política, o que é proibido. Janira e o pastor estiveram juntos na Marcha Para Jesus, no sábado anterior.
Já Silas Mafaia respondeu às acusações de conspiração pelo twitter, fazendo pouco do PSOL, que chamou de “partidinho medíocre”. “Me chamaram de fundamentalista homofóbico. Tenho fundamentos, sou a favor da família e eles da prostituição; sou contra as drogas, eles a apoiam. O PSOL tem como um dos seus membros fundadores um terrorista assassino italiano, eu tenho Jesus”, disse ele. O terrorista no caso é Achille Lollo, que militou no partido antes de retornar à Itália, transformado em “mentor” do PSOL por Olavo de Carvalho.
Tudo isso parece ser apenas uma pequena escaramuça da política (e da igreja) do Rio de Janeiro. O próprio Jean Wyllys tem posições controversas, como adotar como sua principal bandeira feminina a legalização da prostituição, o que não é nem de longe posição consensual no feminismo atual. Mas no terrível oportunismo e falta de ética que mancham a política nacional, essa pequena vitória do principismo acaba adquirindo uma simbologia importante. E viva a baiana que roda.
Por Alex Antunes | Blog do Alex Antunes





