
Algumas datas passam despercebidas, mas guardam, em poucas horas, verdadeiras revoluções culturais. Foi assim quando Tom Jobim, Vinicius de Morais e João Gilberto cantaram “Garota de Ipanema” pela primeira vez; Luiz Gonzaga gravou “Asa Branca”; e quatro jovens se reuniram no Capão Redondo para criar o Racionais MC’s.
Esses dias norteiam os episódios de “Hoje é Dia de Música”, no ar no canal a cabo HBO, toda quinta-feira às 23h, uma espécie de retrospectiva dos momentos cruciais –dos dias anteriores e as consequências que vieram a seguir. O primeiro capítulo, exibido, no último dia 2, acompanha o dia do registro da música “Pelo Telefone”, de Donga, considerado o primeiro samba da história. Nesta quinta-feira, a série viaja pelo nascimento das escolas de samba.
O primeiro álbum do Racionais, “Holocausto Urbano” (1990), certamente não estourou rapidamente, mas lançava, em oito músicas, um caminho sem volta para o hip-hop e para a música brasileira. “Foi quando a periferia começou a fazer com que suas vozes fossem ouvidas, sua realidade fosse colocada com intensidade. Até aquele momento, os movimentos da periferia eram fechados na própria periferia”, diz ao UOL o cantor e compositor Ivan Lins.
O instrumentista apresenta a série ao lado de Monica Salmaso, sentado a um piano acústico. Mesmo com uma carreira consolidada em um instrumento mais erudito, ele viaja na proposta da série e coloca os Racionais como um dos momentos mais influentes da música. “Eles saíram e invadiram a cidade. O rap vem como um desabafo, porque a sociedade mantinha a periferia na periferia. O governo e o estado cagava e andava para eles, e a classe média também não dava bola. A periferia, até então, só se manifestava no Carnaval. Manteve acessa a denúncia nos centros urbanos, foi um movimento muito importante”.
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“Rodrigo Capote/UOLEles saíram e invadiram a cidade. O rap vem como um desabafo, porque a sociedade mantinha a periferia na periferia. O governo e o estado cagava e andava pra eles e a classe média também não dava bola. A periferia até então só se manifestava no carnaval. Foi um movimento muito importante
Sobre a criação dos Racionais MC’s“
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Da bossa ao excesso de novos artistas
Com depoimentos de Roberto Menescal, Edu Lobo, Gilberto Gil, Chico Buarque, Martinho da Vila, Alceu Valença, Gaby Amarantos e Emicida, além de jornalistas e escritores como Ruy Castro e Sergio Cabral, a série resgata períodos do rico e complexo cancioneiro brasileiro até os anos 90, com o surgimento do mangue beat e de compositores como Lenine e Chico César.
O século 21, no entanto, não figura em nenhum dos dez episódios. A nossa música está em crise? Ivan Lins discorda. O que mudou foi a forma de se ouvir e divulgar música. “Nos anos 90, o mercado ficou mais difícil com a pirataria e uma série de fatores. A própria indústria começou a dificultar o acesso à música de qualidade. Basicamente, as rádios pararam de tocar. Isso foi começo dos anos 90 e vem até hoje. A mídia aberta abandonou a música qualitativa brasileira”, aponta.
A internet, como instrumento e vitrine, impulsionou movimentos e artistas até então desconhecidos. A impressão pode até ser de que não há nada importante acontecendo na música, mas o compositor acredita no efeito contrário. “Acho que o problema é que tem acontecido muita coisa interessante. Tem uma garotada fazendo coisas fantásticas, como o 5 a Seco. Eles colocaram 2.000 pessoas em duas noites no Auditório [do Ibirapuera, em São Paulo]. Só garotada. E no Rio ninguém faz a menor ideia de quem são. Tem uns meninos aparecendo, mas se você não ficar fuçando, não acha.”
Entre o dia em que Carmen Miranda pisou no navio Uruguai rumo à América e a Tropicália, Ivan não se furta em dizer o seu próprio divisor de águas: a bossa nova. O gênero ganha um episódio inteiro da fase pré-bossa, com Tom Jobim, Dick Farney e Johnny Alf, até o lançamento da obra-prima do gênero: o disco “Chega de Saudade”, de João Gilberto, em 1959.
“A música brasileira ganhou dimensão internacional, uma modernidade harmônica. Se tornou mais diferenciada, mesmo com a influência dos anos 50, onde, de uma certa maneira, o jazz americano já vinha desenvolvendo. Isso desembocou no Brasil e optou-se por não aprofundar demais a forma jazzística e ir para o popular. A bossa ainda interfere e influencia muitos músicos no mundo inteiro”, observa Ivan.
Tiago Dias
Do UOL, em São Paulo



