
Nem a chuva que apareceu durante todo o evento foi empecilho para que os camisas pretas comparecessem em bom número no Paço Municipal de Santo André para mais uma Rock in Rua, festival que ocorre (quase que) mensalmente na cidade. Realizado no último dia do mês de agosto, o festival apresentou uma de suas melhores edições, que contou com as bandas locais Macchina, Metal Militia Brazilian Tribute, Demolition Inc., Seventh Seal e, como headliner, os veteranos do Salário Mínimo, que também fecharam a edição de agosto do ano passado.
Com previsão de início para às 12h00, a primeira banda do evento, a Macchina, só iniciou seu set duas horas depois. Infelizmente, devido à demora do transporte coletivo, acabei pegando apenas metade da apresentação do trio formado por Anderson Mattielo (voz e guitarra), Felipe Microfone (baixo) e Gabriel Barbosa (bateria), que agradou em cheio os presentes, mesmo diante de forte chuva. Os camisas pretas não arredaram o pé de frente do palco, se divertindo durante a execução das canções do primeiro EP do grupo, cuja linha musical é um encontro de grupos como Corrosion of Conformity da fase “Blind” e “Deliverance” com Audioslave, ou seja, o lance é pesado, bem pesado!
A segunda banda do evento, o Metal Militia Brazilian Tribute como o próprio nome sugere é um grupo de tributo à turma de James Heitfield, que agradou em cheio os jovens headbangers que pularam muito em sons como “From Whom the Bell Tolls”, “The Unforgiven” e “Creeping Death”, mesmo que em muitos momentos os vocais deixaram a desejar. Embora tenham cumprido sua missão, principalmente na participação de Ricardo Peres (Demolition Inc.) em “Seek and Destroy”, penso que eventos como esse deveriam focar em grupos autorais, pois se queremos que a cena cresça, que seja pelas canções de grupos underground. E não é questão de discurso pronto ou preconceito, mas da propagação real de uma cena.
A terceira banda do dia, o Demolition Inc., apresenta uma proposta musical interessante, que mescla grupos como Fight, Metal Church e Annihilator, mostrando que esses grupos mereciam melhor sorte. Contando atualmente com Ricardo Peres (voz, ex-Seventh Seal), Diego Reis (guitarra), Cleber Beraldo (guitarra), Valter Martins (baixo) e André Alves (bateria), o quinteto possui um som que combina bem peso, vocais rasgados e melodia, que tem como destaque a música “Revolution Now”, candidata a carro-chefe do debut da banda que está sendo preparado. Outro ponto para o grupo foi para a escolha dos covers para “Hitman” (Metal Church) e “Domination” (Pantera).
Antes de encerrar o set, o grupo agiu com bom humor quando os bangers pediram para tocarem Raimundos, Ricardo disse que levariam uma música que o grupo ainda não havia gravado e mandaram a autoral “Set World On Fire”, encerrando a ótima apresentação do grupo.
Já anoitecia quando o Seventh Seal iniciou seu ‘set’. Talvez vivendo seu melhor momento após incertezas e mudanças de formação, Leandro Caçoilo (voz), Tiago Claro (guitarra), Thiago Oliveira (guitarra), Victor Próspero (baixo) e a participação de Marcus Dotta em substituição ao baterista Roberto Moratti privilegiaram seu mais recente lançamento, o álbum “Mechanical Souls”, lançado em 2013.
Do citado trabalho foram as canções de abertura, “Beyond the Sun” e “Back to the Game”, que mostram a banda investindo em novas possibilidades, nas quais falarei nas próximas linhas. Uma volta ao passado foi feita por meio das músicas “Seventh Seal” e uma fabulosa versão para “Stand Up and Shout”, do saudoso Ronnie James Dio. Mas sabiamente o grupo focou o repertório no atual trabalho, cuja variedade tem tudo para agregar fãs de outros estilos, desde as melodias progressivas de “Virtual Ego” até os flertes com o black metal de “Dark Chant”, que encerrou o show dos caras.
Chuva, rock e discurso
O grande momento do Rock in Rua teve início às 19h40 com a apresentação da banda Salário Mínimo. A chuva, que citei no início deste texto, e que nas apresentações parava e voltava, resolveu ficar de vez no show do quinteto paulista. Esse, mais uma vez, provou que em cima do palco é imbatível.
China Lee (voz), Ricardo Beretta (guitarra), Junior Muzilli (guitarra), Diogo Lessa (baixo) e Marcelo Campos (bateria) fizeram um show que deu ênfase no ‘debut’ “Beijo Fatal”, de 1987, do qual mandaram a faixa-título, “Jogos de Guerra”, e “Dama da Noite”, precedida de uma “oração” em que foram citados desde pagodeiros e funkeiros até as curvas das mulheres brasileiras.
China Lee, apesar de ser um frontman de mão cheia, em alguns momentos deve tomar cuidado com o discurso, pois dizer “é tudo ladrão” se referindo aos políticos é algo que talvez não deva ser dito, não por causa dos representantes em si – esses devem, sim, serem mais coerentes com o discurso e proposta -, mas pelo poder que as palavras exercem sobre o público, que passionalmente acaba agindo ao invés de pensar.
Mas voltando ao show, os caras não esqueceram do segundo álbum, o grudento “Simplesmente Rock”, do qual mandaram “Sofrer”, “Delírio Estelar” (regravação da coletânea SP Metal I) e a belíssima balada “Anjo”.
Surpresas
Apesar de só o repertório acima valer o show, a banda reservou duas surpresas ao público. A primeira foi chamar o atual porta-voz do evento, Carlos Frei, conhecido como Carlão, também dono do Vol.4 Rock Bar, para juntos levarem uma versão do hino da Portuguesa de Desportos, clube da segunda divisão do futebol nacional. Para quem não sabe, Carlão e China são torcedores do clube da região do Canindé e levaram essa música pela primeira vez fora das festividades convencionais do time.
A segunda foi a execução da música inédita “Fatos Reais”, que estará no próximo álbum do grupo. Ela agradará aos fãs oitentistas, pois vem mais voltada ao metal tradicional, além de ter sido bem recebida pelo público.
O show já chegava ao seu final com “Cabeça Metal”, que coroou mais uma bela apresentação do quinteto. Assim terminou, quase às 21h00, mais uma edição do Rock in Rua, que apesar da chuva pentelha, contou com todos os ingredientes que os fãs do estilo gostam: música de qualidade e grupos que fazem por merecer uma oportunidade nas vitrolas (ou MP3 players) de muita gente.

Foto: Edu Guimarães
Fonte: Território da Música



