É fascinante tentar entender os fenômenos que envolvem o corpo e a mente das pessoas. Na realidade, se você for bom observador, irá notar que uma informação ouvida na rua ou descoberta na tela do cinema – não importa onde – pode ajudar muito na compreensão de certos temas, até mesmo os “assuntos de ciência”. Sobre os sonhos, por exemplo, existe muito material para estimular a imaginação. Afinal, não apenas as questões científicos podem explicar a sua ocorrência. A parapsicologia, a arte e o misticismo – vários campos de estudo ou interesse – têm as suas definições particulares de sonho.

Os sonhos podem inspirar os artistas?
E para você, o que é o sonho? Qual seria a explicação mais cabível para o fenômeno e o que ele teria a revelar? Seria algo como premonição, lembrança, inspiração? Para o pintor Salvador Dalí, os sonhos eram a base de sua criação artística: ele sonhava com algo e depois reproduzia essa visão onírica em uma tela com pincéis.
Seus quadros são alguns dos mais valorizados do mundo! Lembra da cena do filme “Meia-noite em Paris” (Woody Allen, 2011) em que ele fala do sonho com rinocerontes?
E outras histórias dão conta de que um sonho pode inspirar: Paul MacCartney declarou que compôs a famosa “Yesterday” após acordar de um sonho… Exagero? Não parece! Até mesmo cientistas já disseram que descobriram fórmulas em visões nos sonhos. Como no caso do russo Dmitri Mendeleev, químico que elaborou o diagrama em que os elementos químicos se encaixavam – num sonho!
Os sonhos e o estágio REM do sono
Você já deve ter lido algo a respeito do estágio do sono denominado REM (“rapid eye movement”). Nessa fase do seu sono, as ondas ficam tão rápidas quanto as ondas relativas aos níveis de consciência. Trata-se exatamente daquele momento em que, se você observar o “repousante” dormindo, verá seus olhos se movendo rapidamente de um lado para o outro. Além dos movimentos oculares acelerados, outros aspectos caracterizam esse momento do sono, como abalos musculares, movimentações bruscas dos membros (assim como dos dedos, dos lábios) e, também, oscilações respiratórias e cardiovasculares.
De acordo com corrente tradicional da Neurociência, é nessa fase que ocorrem a maior parte dos sonhos. Os outros períodos do sono são chamados de NREM (não-Rem).
Momentos e características dos sonhos
Para entender melhor o fenômeno dos sonhos, o Yahoo consultou o psiquiatra Antônio Luis de Sanfim Pereira, pós-graduado em Psiquiatria pela PUC-Rio e em Neurociência pela UFRJ.
Questionado sobre o momento em que os sonhos ocorrem, ele esclareceu que, atualmente, os sonhos também podem acontecer durante o sono NREM (sono profundo), embora de fato eles sejam mais comuns ao longo do sono REM.
Sanfim Pereira – que possui grande know-how na área em consultório particular e também atua no Hospital da Lagoa – explicou as diferenças entre os sonhos ocorridos no estágio REM e os da fase NREM:
“Os sonhos REM são mais vívidos e intensos, um tanto mais bizarros, e pressupõem uma participação maior do sonhador; assim têm uma estruturação espacial realmente maior. E, por todos os detalhes, podem ser lembrados com mais facilidade e relatados de modo mais amplo, com maiores especificações e dados. Por sua vez, os sonhos NREM apresentam mais conceito do que forma, sendo estruturados por fragmentos soltos de realidade, sem uma organização esquemática. Também se percebe neles uma participação menos ativa do sonhador. Por tudo isso, são menos descritíveis e claros”.
Sonhos repetidos
Você já sonhou a mesma coisa por repetidas vezes? Há pessoas que costumam sonhar com quedas ou, ao contrário, com escaladas em grandes alturas, com incêndios ou inundações etc. Nesse sentido, o psiquiatra Sanfim Pereira esclareceu que a repetição de certos conteúdos oníricos pode ser analisada em um contexto mais amplo. De acordo com a sua explicação, sonhos repetidos acontecem quando existem determinadas disfunções, questões que não estão resolvidas. Assim, os sonhos receberiam influências de ambiente interno e externo. Exemplos: quadros de ansiedade, desequilíbrios emocionais, inseguranças etc. Até mesmo distúrbios orgânicos poderiam causar essa repetição de conteúdos na simbologia dos sonh
E os pesadelos?
Quem nunca passou por aqueles sonhos (geralmente longos) e aterrorizadores que parecem o fim do mundo? Esses sonhos ruins, curiosamente, costumam possuir uma sequência elaborada, com imagens e fatos indutores de pânico no sonhador. O psiquiatra entrevistado esclarece que é comum num pesadelo o foco em perigos físicos (se aproximando) para o indivíduo. Também caracterizam os pesadelos sucessões sofisticadas e “imaginativas” de ataques e perseguições. Há casos, porém, em que os problemas são revelados de modo mais sutil ao sonhador, em formas mais abstratas, como representações de frustrações ou embaraços de natureza emocional.
Sanfim Pereira também revela que a incidência de pesadelos varia de indivíduo para indivíduo: enquanto algumas pessoas só os têm em períodos de doenças ou grandes estresses, há aquelas que os apresentam por toda a vida, em qualquer época. Mas o psiquiatra detalha que, na maior parte dos casos, pesadelos surgem depois de experiências vistas como traumáticas. Outros dados revelados pelo psiquiatra informam que cerca de metade da população pode desenvolver pesadelos ocasionais, sendo estes mais comuns em crianças.
Os sonhos em Freud e Jung
O especialista entrevistado também fez uma abordagem psicológica do fenômeno onírico, oferecendo uma distinção de base entre o pensamento freudiano e o junguiano. De acordo com o psiquiatra, tanto o pensamento de Freud como o de Jung abrangeriam, em tese, uma linguagem indireta, de simbologias e subjetivismos. No entanto, é estabelecida uma distinção:
“A diferença básica entre as duas concepções é a seguinte: Freud oferece uma leitura dos conteúdos oníricos como resultado de opressões e conflitos calcados no inconsciente. Por sua vez, Jung olha para o conteúdo dos sonhos abordando arquétipos, símbolos que teriam sido transmitidos por gerações, por nossos antepassados. Estariam, assim, presentes nos sonhos não somente materiais de inconsciente pessoal (como na visão de Freud), mas também alegorias referentes a contos de fada, mitos, crenças e artes de outras tradições e civilizações” – relata Sanfim Pereira.
Uma visão mística dos sonhos
Com esse enfoque, o Yahoo entrevistou também a escritora e poeta Márcia Leite, que narrou a sua experiência com os sonhos, manifestando serem estes reveladores em ocasiões decisivas. De acordo com o relato da artista das letras, em momento de profunda tristeza ela teve um sonho com símbolos muito fortes. Foi quando uma amiga lhe indicou a leitura do Dicionário de Símbolos de Alain Gheerbrant e Jean Chevalier, o que se tornou um divisor de águas em seu modo de enxergar as simbologias oníricas: “Foi a partir daí que pude compreender que os sonhos são conexões do Divino com o homem, formas de expressão capazes de clarear determinadas situações e indicar caminhos”, detalha.
Ela conta que, desde então, busca analisar a fenomenologia dos sonhos de forma particular, já tendo feito inúmeras leituras e análises a respeito, comprovando benefícios claros na interpretação onírica. Ainda de acordo com a escritora, intuir e interagir harmoniosamente com as mensagens cósmicas – surgidas durante o sono – pode ser algo libertador e surpreendente, na medida em que é oferecida ao sonhador uma descortinadora decifração do inconsciente.
“É no sonho que Deus fala com as pessoas. A linguagem é predominantemente simbólica, para que todos, de qualquer época ou civilização, possam entender” – conclui a poeta que estuda os sonhos.
Por Sayonara Salvioli | Yahoo! Contributor Network



