A biblioteca e a “verdadeira história” da Cidade Colorida
*Isabel Mint
Heloísa, Lina e Lisandro estavam reunidos na casa de Dédalo, a convite dele.
“Agora que já entreguei à polícia as provas contra Minos e dei meu depoimento, posso contar a vocês o que sei.
Depois que nos encontramos na diretoria, presumi que Minos esconderia os documentos em outro lugar e que, provavelmente, consultaria a planta da construção, que indicava aquela sala onde estivemos. Já que ele mesmo não a conhecia, pensou que ninguém mais a encontraria. Além disso, trocar as fechaduras e reforçar a segurança da entrada externa levantaria suspeitas.
Conheço aquela passagem porque, cinco anos atrás, fui responsável por ampliar o prédio da biblioteca. Uma das exigências que se fez foi que se restaurasse o que já existia, e que fosse criada uma construção nova em volta. Estudando a planta original da biblioteca, encontrei as indicações para as passagens que atravessamos ontem. Perguntei aos funcionários mais antigos se aquelas salas eram usadas, mas ninguém sabia da existência delas. Procurei as chaves de todas aquelas portas para visitar as salas, porque era necessário avaliar o estado de conservação de todo o prédio, antes da restauração.
A biblioteca foi reinaugurada logo após a ampliação. Minos era o prefeito da Cidade Colorida; sua família era conhecida por ser proprietária de várias empresas na região e, como consta daqueles papeis que entreguei à polícia, começou a ter problemas financeiros naquela mesma época. E foi quando Minos começou a desviar verbas da prefeitura para salvar as empresas da família.
Quando terminou seu mandato, começou a conduzir negócios ilegais, mais lucrativos, juntamente com os negócios legais, além de ter sido apontado como diretor da nova biblioteca. Ele precisava de muitas pessoas trabalhando em seus negócios ilegais. E não podia aparecer para todas essas pessoas.
Então, resolveu manipular os documentos da biblioteca que tratavam da origem e das lendas da Cidade Colorida. Os originais foram retirados de circulação e escondidos. Ao público foi informado que, durante a reforma da biblioteca, foram encontrados os documentos com a “verdadeira história” da região, mas que estavam em péssimo estado de conservação e que, até o fim do trabalho de restauração dos mesmos, “cópias” seriam disponibilizadas. Essas “cópias” continham uma mistura de lendas e fatos, e um personagem muito conhecido, Dragão, era apresentado como um ser real, mas sem muitos detalhes sobre como isso seria possível.
Os mesmos funcionários que o ajudaram a fraudar a prefeitura estavam “trabalhando” com a restauração dos documentos na biblioteca. E assim foi reescrita a história da Cidade Colorida.
Obviamente, quando foi anunciada a “verdadeira história”, as pessoas quiseram saber em que Minos se baseara para afirmar que os documentos que encontrara eram autênticos. E também quiseram saber onde estavam eles. A resposta para os questionamentos foi que a biblioteca contava com profissionais qualificados para avaliar a autenticidade dos documentos e restaurá-los, e que seriam exibidos depois da restauração. E acrescentou que o trabalho poderia se estender por anos. (O prefeito da Cidade Colorida não entrou na discussão; sabia que a família de Minos era muito poderosa e não quis enfrentá-lo.)
Um dos pontos principais da história reescrita era que Dragão voltaria a agir exatamente ao longo daquele ano. As pessoas mais supersticiosas acreditaram no que foi dito, e aceitaram como possível a existência de Dragão – e até contribuíram involuntariamente com o plano de Minos, disseminando boatos pela cidade. Entretanto, para muitos outros Minos estava aplicando um golpe, embora ainda não soubessem quais eram suas intenções. (Lina, que era mais nova nessa época, não dera atenção às discussões – e somente se lembrou delas quando Cícero foi ameaçado.) Cícero e Laerte foram um dos que desconfiaram de Minos, assim como eu. Como as autoridades não se manifestaram, restou-nos observar. (E fiquei atento mesmo após minha mudança para a Cidade Cinza.)
Como a existência de Dragão fora “oficializada”, Minos sentiu-se livre para incorporá-lo. Os funcionários que o ajudaram na prefeitura e na biblioteca continuaram a trabalhar para ele, em seus negócios ilegais – negócios esses que se expandiram por toda a região da Cidade Colorida, com ramificações na Cidade Cinza. A função desses funcionários era abordar as pessoas de cujos serviços Minos necessitava, para nortear qual seria a estratégia de aproximação de Minos – que dependeria da reação das pessoas. (Todos que eram requisitados para trabalhar com Dragão sabiam que estariam contribuindo com algo ilegal. Nem todos, entretanto, concordavam em fazer isso, mesmo havendo um bom pagamento.)
*Isabel Mint, sonhando…



