
O ano de 2014 foi agitado para o Noturnall. A banda lançou o primeiro disco, um DVD ao vivo, saiu em turnê pelo País e terminou o ano fazendo seis datas na Europa. Mas não pense que agora Thiago Bianchi, Fernando Quesada, Juninho Carelli, Leo Mancini e Aquiles Priester vão fazer uma pausa. O ano de 2015 está tão ou mais agitado do que foi o ano passado.
Tem disco novo a caminho, DVD novo e turnê ao lado do Adrenaline Mob pelo Brasil. A gente conversou com o baixista e produtor Fernando Quesada que falou sobre essas novidades e contou como foi a turnê pela Europa, viajando dentro de um ônibus junto com a gigantesca bateria do Aquiles Priester.
Quesada ainda deu uma aula sobre como administrar uma banda. E a dica que fica é: não é assim tão difícil, mas é preciso arregaçar as mangas pois você terá muito trabalho. E o glamour é igual a zero. Confira o papo.
A banda se formou em 2013 e já em 2014 vocês lançaram álbum, DVD ao vivo, saíram em turnê pelo Brasil e ainda fizeram esses shows na Europa. O Noturnall começou com tudo… Isso foi planejado ou as coisas foram acontecendo?
FQ: Quando a gente formou a banda em 2013, tinha muita coisa que a gente queria fazer que não podia com o Shaman. Por causa da agenda do Ricardo [Confessori, que estava no Angra], por causa da gravadora… Com a nova banda a gente podia fazer tudo que estava engatilhado, nos planos. Fizemos o disco rápido e chamamos o Russel Allen do Symphony X para produzir. Logo queríamos marcar um shows grande para divulgar o disco e veio a ideia de gravar para um DVD…
Quanto à turnê, na verdade a gente não sabia que teria tantos pedidos de show. Foi no meio do ano, a gente começou a receber muitos pedidos. A gente viu que tinha um público grande, principalmente no interior da Bahia, de Pernambuco… E resolvemos fazer essa turnê diferente, passando por cidades que normalmente não passamos com o Shaman ou outras bandas. E como não é o tipo de turnê que dá para fazer de avião, caímos na estrada com o Motorhome [um ônibus preparado]. Então tudo foi planejado, menos essa turnê, que a gente percebeu que tinha demanda e fez meio na loucura.
Na época em que vocês lançaram o primeiro videoclipe, conversei com o Thiago Bianchi e ele falou sobre esse retorno dos fãs, especialmente nas redes sociais…
FQ: Foi impressionante mesmo. O disco bateu recordes de venda ainda na pré-venda. Vendeu mais que todos os discos que o Shaman no lançamento. Nas redes sociais a gente recebeu desenhos, cartas, uma coisa que não tinha acontecido antes nas outras bandas que tivemos.
Até por ser um estilo musical um tanto diferente, a gente sempre encarou o Noturnall como uma banda nova, que passaria por todas as fases antes de chegar a algum lugar. A gente esperava que lá pelo terceiro disco fosse ter alguma consagração. E foi uma surpresa ver o primeiro disco já tendo esse retorno.
Vocês acabaram de voltar da Europa. Como foi a turnê por lá? Vocês mesmos marcaram esses shows?
FQ: O Shaman nunca tinha feito show na Europa, sem ser em festivais; o Hangar, do Aquiles, também não. Então a gente não tinha contatos, nem nada. Fizemos como uma banda nova deve fazer mesmo. Pesquisamos na internet, vimos de que países tínhamos mais acessos, contatamos fãs desses locais e através deles, os contratantes. Com ajuda do nosso assessor de imprensa fomos telefonando, mandando email. E assim montamos a mini turnê.
Ter uma banda é muito mais do que tocar um instrumento…
FQ: Muito mais! Uma turnê na Europa tem uma conta que não fecha tão fácil: é tudo em Euro. Então tem o trabalho de ir atrás de patrocínio, de alguma ajuda para fechar essa conta. E precisa convencer os caras de lá de que compensa levar uma banda brasileira para tocar na cidade deles. O trabalho é grande. Mas não é exatamente difícil, por que a Europa é receptiva para bandas novas de músicas próprias, pois eles não tem essa cultura de ‘banda cover’. Mas você precisa ter um bom material e trabalhar muito. Até porque hoje em dia não tem uma gravadora que vai fazer isso por você. É a própria banda que precisa cuidar da parte administrativa, financeira e logística.
E como isso funciona no Noturnall?
FQ: O Aquiles tem muita atividade com outras bandas. E o Leo Mancini [guitarrista] também. Então eles acabam só tocando mesmo. E eu, o Thiago e o Juninho [Carelli, tecladista] fazemos toda essa outra parte. Eu cuido do setor financeiro, eu sou o cara chato; o Thiago corre atrás dos contatos; e o Juninho corre atrás de equipamentos – quando a chega num lugar pra tocar a gente já sabe exatamente o que vai ter de equipamento porque ele já correu atrás de tudo. Como cada um tem uma função, a gente sabe quem é o culpado quando alguma coisa não dá certo (risos). E o Noturnall tem uma coisa boa: o Juninho produz vídeo e eu e o Thiago produzimos áudio. O DVD foi a gente mesmo quem fez. Então a gente acaba fazendo tudo na banda. Somos uma produtora/banda.
É claro que uma banda pode contratar esses serviços, mas obviamente isso tem um custo grande…
FQ: É por isso que a gente sempre fala e incentiva as pessoas a estudarem e aprenderem a ser seus próprios managers [empresários]. Não importa o estilo musical. Se você não está na música popular – como sertanejo pop, funk carioca – que tem as majors que cuidam de você e você não souber planejar sua carreira, você não terá uma carreira. Aí você vai se autoenganar, vai lançar uma música no Facebook e achar que aquilo está ótimo. Não é suficiente. As curtidas não se traduzem em gente nos seus shows. Tem que saber como as coisas funcionam, saber sobre direitos autorais, quanto custa prensar um disco, todas essas coisas.
Então o glamour é igual a zero…
FQ: É isso. A gente até brinca que antigamente quando ia tocar, acabava o show, era hora de festejar. Quando você chegava no hotel as suas coisas estavam lá. Hoje não funciona mais assim. Você chega preocupado com o show, tem o momento que você toca – que talvez seja o mais relaxante da noite – e quando acaba você tem que saber como desmontar tudo. Eu, por exemplo, sou o responsável pelo merchandising, por conferir se o caixa tá certo. Até porque hoje o merchandising chega a representar 70% do cachê. Se você não tem uma banquinha para vender seu produto é muito difícil se sustentar. Você precisa pensar, por exemplo, que as pessoas não andam com dinheiro hoje em dia, então é preciso ter aquelas maquininhas de cartão de crédito. E alguém vai ter que cuidar disso. É o glamour zero… (risos)
E como foi a viagem pela Europa?
FQ: A viagem foi ótima! Como estava tudo planejado e programado antes, sabíamos exatamente o que íamos encontrar em cada lugar que tocamos. E a banda se deu super bem viajando junto… Você só conhece a sua banda de verdade quando faz uma viagem dessas todos juntos: tomando banho e dormindo no mesmo lugar todos os dias. Usamos um Motorhome e algumas das viagens foram bem longas e cansativas. Tocamos em Zaragoza, na Espanha, e de lá tínhamos uma viagem de 1.300 quilômetros até a Suíça para tocar no dia seguinte. Saímos às 2 da manhã, chegamos às 4 da tarde, para passar o som. Almoçamos no ônibus mesmo. E nesse dia ainda tivemos um imprevisto que foi ficar duas horas na fronteira da Suíça – é um procedimento normal ter uma revista exagerada, ainda mais que era um Motorhome com músicos dentro…
Mas a viagem foi demais, todos os lugares nos receberam super bem. As pessoas conheciam a banda e até as músicas – uma gravadora tinha lançado nosso disco lá. O show em Madri foi demais, todos foram. No último show já estávamos bem cansados por conta das viagens de ônibus. Ah, visitamos também a fábrica da Paiste [de pratos de bateria]… Aliás, nossas marcas ajudaram muito, pois não tivemos que levar equipamento daqui. As marcas levaram as coisas lá para gente…
E a bateria do Aquiles? Porque não é uma bateria qualquer…
FQ: Então… (risos) Quando a gente chegou no aeroporto, nos avisaram que a bateria estava no depósito. E quando a gente foi ver, ela estava lá mesmo, aquela bateria gigantesca do Aquiles. Então nosso Motorhome era um misto de cama e peças de bateria (risos). E a gente levou nosso pano de fundo, nosso projetor. A gente deixou de levar roupa para levar nossa estrutura de palco. Mas olha, valeu a pena.
Por falar no Aquiles, ele é um músico convidado no Nortunall ou é um integrante oficial?
FQ: Ele é integrante mesmo. Quando começamos a banda, éramos eu o Thiago e o Juninho. O Leo resolveu ficar com a gente e o Aquiles seria um músico convidado para o primeiro disco. Mas acabamos virando uma banda mesmo.
E dá para conciliar a agenda de vocês? Porque ele está no Primal Fear agora…
FQ: Dá sim. Como aqui no Brasil a gente também tem outras atividades – o Thiago tem o estúdio, o Juninho tem outras bandas, a produtora e eu dou aulas na EM&T – a gente sentou agora no começo do ano e definimos toda a agenda. Pelo menos a agenda dos shows grandes e dos projetos, para conciliar as datas. O que surge depois, a gente consulta essa agenda e vê se consegue encaixar. Ah, agora em maio a gente vai fazer uma série de shows junto com o Adrenaline Mob no Brasil.
E quais são as datas confirmadas para esses shows com o Adrenaline Mob?
FQ: São oito shows. Tem quatro locais confirmados e quatro a serem confirmados. Vai ter show no Rio de Janeiro, São Paulo, Curitiba e Limeira. Vai ter Belo Horizonte também… E a gente vai aproveitar para gravar um videoclipe de uma música nova junto com eles – com as duas bandas no palco.
E os planos do Noturnall pra esse ano?
FQ: A gente começa lançando o videoclipe novo agora em março. Aí em abril a gente vai lançar um DVD chamado “Noturnall & Friends” ao lado de bandas brasileiras novas que não têm discos lançados ainda, mas que a gente acha muito boas. Vamos gravar ao vivo em estúdio, como se estivéssemos apresentando essas bandas novas para o público.
Como vocês selecionaram essas bandas e qual o repertório?
FQ: Serão seis bandas, uma delas é o Devachan e tem outras muito boas que a gente conheceu o trabalho ou já tocou junto. Não teve uma seleção. São bandas que a gente acha legais. Vamos tocar músicas dessas bandas. A gente quer dar espaço pra esse pessoal aparecer. Serão duas músicas de cada banda. E vai ter as duas bandas tocando: dois baixos, duas baterias… todo mundo junto.
E o disco novo do Noturnall?
FQ: Logo depois da turnê com o Adrenaline Mob a gente lança o disco novo. E junto com o disco a gente ainda vai lançar um documentário que a gente gravou nessa viagem pela Europa.
Então 2015 está tão ou mais agitado do que foi 2014 para o Noturnall…
FQ: Está. E a gente ainda sai em turnê e no final do ano queremos dar outra passada pela Europa. A gente já planejou tudo.
Mas com tantas atividades, quando é que vocês fizeram esse disco novo?
FQ: A gente fez no tempo livre. A gente já está com as músicas todas compostas. O processo de composição é meu e do Thiago. Eu gravo os riffs, as guitarras e os baixos, o Thiago faz a linha de voz, aí a gente programa a bateria. O Juninho faz os arranjos todos. E aí a gente passa pro Leo fazer os solos e frases e o Aquiles gravar a bateria. Aí no estúdio cada um muda um pouco aqui e ali. Depois de composto o processo vai rápido. Coisa de um mês.
Aliás, essa parceria entre você e o Thiago é antiga, não é?
FQ: Sim, quando eu tinha 14 anos eu bati na porta do estúdio do Thiago e ele me deu um estágio. Ele estava se recuperando do câncer, ‘tava’ carecão, e precisava de alguém pra carregar as coisas pra ele. Depois acabei virando sócio dele do estúdio. E desde então trabalhamos juntos praticamente todos os dias. Ele é o meu melhor amigo. É uma parceria que funciona muito bem há 15 anos.
O disco tem nome? Quando fica pronto?
FQ: Ele vai ser lançado em julho, mas ainda não tem nome. Vão ser 10 músicas.




