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Gosto se discute

por Maira Scarpellini

Gosto não é algo que vem do nada,  é inato,  independe de fatores sociais e históricos. Isso deve estar claro para que possamos entender que o que gostamos faz parte das nossas vivências, da nossa cultura, do nosso conhecimento adquirido no decorrer da vida, do convívio com diferentes pessoas, enfim das relações que podemos estabelecer com o que nos cerca.

Portanto quando coloco no título que gosto se discute quero com isso afirmar que gosto se discute por ser algo que pode ser estudado e analisado, pois este é estabelecido pelas vivências das pessoas.

É comum ouvirmos em discussões a expressão “gosto não se discute” mas, é diferente discutir gosto de  querer  impor seu gosto em detrimento do gosto do outro, sem entender, que o outro vem de diferente contexto, de uma outra vivência,  passou por diferentes experiências, pertenceu a diferentes grupos e muitas vezes até mesmo  diferente geração.

Gosto é construído e, portanto, cada um tem o seu. Isso não quer dizer que ele é fixo e  que não pode ser mudado, pelo contrario, o gosto está sempre em constante mutação, quando experimentamos coisas novas, aprendemos novas técnicas, novas formas de entender o fenômeno, enfim o gosto também se modifica com o processo de aprendizagem que estamos passando constantemente em nossas vidas.

Tratemos agora de discutir um pouco a questão do gosto a uma das áreas que, creio eu, mais é polemica e diversa a este respeito: a música. A música possui diversos gêneros e estilos diferentes e pode estar associada a diferentes momentos da vida do ser humano, sendo usada até mesmo como um dos fatores mais marcantes para estabelecer um grupo.

O gosto musical, assim como os outros gostos, também é construído, ele vai variar de acordo com a carga que cada um agregou no decorrer de sua vida. Gosta-se ou não de determinado gênero, estilo, intérprete ou compositor de acordo com as experiências acumuladas com cada um deles.

Relacionamos a música a fatores sociais como acontecimentos políticos, relacionamentos amorosos, momentos importantes, pessoas queridas, eventos festivos, religiosos, dentre outros. A música em si como um fenômeno sonoro constituído de ondas em determinadas frequências deixa de ter importância. Até mesmo os especialistas que estudam o fenômeno musical em si  não possuem o poder de determinar quais serão as relações e os níveis de importância que esta poderá atingir, para os outros e até mesmo para ele.

Além disso, é importante ressaltar que só conseguimos significar em nossas vidas o que faz referencias com algum conhecimento que já carregamos, assim para alguém que nunca aprendeu a entender música erudita (chamada popularmente clássica) ouvi-la trará comentários como “esta música dá sono” ou “é música de filme de terror”, e ainda alguém que está acostumando com música sertaneja ao ouvir tambores africanos acredita que não ser música. Os conflitos entre diferentes culturas e gerações com música é comum e está mais presentes em nossas vidas do que imaginamos. Uma cena comum é ouvirmos de nossos avós que estas músicas de carnaval de hoje em dia são muito ruins e que no tempo em que eram jovens é que era bom, ou quando a mãe  acredita ser barulho as músicas que o filho ouve, e ainda quando o jovem acha brega e sonolenta a música que a mãe gosta. Estas cenas podem até gerar conflitos se não entendermos que o outro pertence a outro contexto e tem outra vivencia diferente da sua.

Desta forma se pararmos pra pensar nas relações que acontecem em nosso dia-a-dia envolvendo gosto musical, veremos que elas estão bastante ligadas a constituição social e pessoal das vivencias que as pessoas carregam. O que devemos é buscar compreender o porque que as pessoas gostam ou não de certa música e procurar com isso estabelecer boas relações com elas e seu gosto, sem criticar fora de um contexto.

Assim, gosto se discute como um fator social a ser compreendido e estudado mas gosto não se contesta pois faz parte da cultura e da vivência da cada um.

Sobre a Autora

Maíra Scarpellini
● Cursa mestrado em Artes subárea música na Universidade Federal de Uberlândia
● Graduada em Licenciatura em Artes – Música, pela Unicamp

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